"(...) Nas fotografias os animais pareciam magnifícos mas ainda pareciam melhores nos meus desenhos, e além disso era só meus. Lembro-me muito bem da excitação com que ficava horas a fio a olhar para os meus desenhos, precisamente o que faço agora com os meus poemas. (...) Uma excitação muito particular, a concentração levemente hipnótica e totalmente involuntária que germina o desenrolar do poema na mente, o turbilhão de sensações depois realizando-se numa forma clara, essa forma que não passa então a ser a única realidade viva no interior de tudo o resto, tudo aponta para uma ligação evidente entre duas coisas. Porque é sempre de uma captura que se trata e o poema não é senão um novo ser, um novo espécime de uma vida que acontece fora dessa própria vida.
(...)
Será melhor chamar-lhe, então, reunião de várias componentes vivas, movidas por um espírito único. As componentes vivas das palavras, as imagens, os ritmos. O espírito é a vida que as habita quando tudo converge para a mesma finalidade. É impossível dizer o que acontece primeiro, se são as diferentes partes a surgir ou se é o espírito que as comanda. Mas se qualquer uma delas estiver morta... se, no acto de ler, algumas das palavras, das imagens, dos ritmos, não contiverem vida em si... então o novo ser fica mutilado e o espírito doente. (...) As palavras que têm vida são as que nós ouvimos, como «clique» ou «cacarejar», ou vemos, como «sardento» ou «raiado», ou saboreamos, como «vinagre» ou «açúcar», ou tocamos, como «espinho» ou «oleoso», ou cheiramos, como «alcatrão» ou
«cebola». Ou seja, as palavras que estão relacionadas directamente com os nossos cinco sentidos. Ou então palavras que parecem agir por si, como se fossem impulsionadas por músculos, como «piparote» ou «balanço».
Depois é que tudo se torna mais complicado. A palavra «clique» não nos dá apenas o som, dá-nos também a noção de um movimento rápido, exactamente o que faz a nossa língua quando tem de dizer «clique». E transmite ainda a sensação de levzza e fragilidade, assim como um pequeno ramo partido entre os dentes. As coisas assim pesadas nunca poderão fazer «clique», e ao mesmo se passa com as que torcem mas não partem. E o alcatrão, da mesma maneira, não evoca apenas um odor forte. Faz lembrar que é peganhento, espesso e escuro. E que desliza, devagar, como uma cobra negra, também brilhante e negro. É assim com a maior parte das palavras. Pertencem ao mesmo tempo a todos os sentidos, como se cada uma delas tivesse olhos, ouvidos e língua, ou ouvidos e dedos - e um corpo existindo com eles.
(...) Na má poesia (...) as palavras matam-se umas às outras.
(...) Não procedam de forma laboratorial, como se fosse parte de uma operação aritmética mental. Olhem bem para ele, toquem-no, cheirem-no, evolvam-se nele. Se assim fizerem, verão que as próprias palavras, como que por magia, se deslocam á procura de outras palavras. E não haverá lugar para preocupações com vírgulas, pontos e coisas o género. Nem sequer será necessário olhar para as palavras. Porque tudo em vós, os olhos, os ouvidos, o gosto, o tacto, numa palavra, todo o vosso ser, se entregará a isso que as palavras estão a fazer nascer. (...) É importante deixar a escrita andar o tempo que for preciso e depois voltar atrás para ver o que se escreveu. (...) Ao lerem o que escreveram, hão-de sentir uma espécie de choque. Porque terão captado um espírito, um ser."
Ted Hughes, O Fazer da Poesia.
Friday, April 08, 2005
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