Sunday, February 24, 2008

Há um adeus que se desprendeu da ponta da vontade de ficar…

Que nem é bem adeus porque não parte
Porque não é divino…
Não que seja pagão…
É adeus…
adeus que não te afastas,
adeus que não te vais,
adeus que ficas,
permaneces,
que te fixas
e entranhas,
que te consomes
e consomes quem com a mão aberta a abanar
de um lado
para o outro,
com aquele sorriso palerma das saudades que ainda não são
mas que já se adivinham,
o mesmo sorriso palerma do
“que foi tão bom que tivessem vindo, adeus, adeus, voltem sempre!!!”,
e a mão vai abanando num gesto que quer dizer adeus,
mas que não diz coisa nenhuma.

Adeus que eu vou-me embora, mesmo que não dê um único passo.
Adeus que já se faz tarde e a estrada é longa.
Adeus, adeus e até à próxima!

Este adeus é mentiroso
Este adeus é
Até já.

(actualizado)

Wednesday, February 13, 2008

Sunday, February 10, 2008

Há coisas que encontramos esquecidas numa gaveta, esta foi uma delas...

Setúbal, 13 Maio de 1996
Querido Diário esta semana na minah escola têm acontecido coisas muito estranhas.
Eu e a Sofia brincámos às Navegantes, eu sou a da água e ela a do vento.
Nas aulas aprendi o V=a x a x a e V= c x l x alt, é muito fácil.
Na sexta-feira eu e a escola vamos a Arraiolos.
Eu gosto de andar de bicicleta.
Amanhã espero ter mais aventuras pela frente.
Mariana.
É bom lembrar as coisas simples.

Sunday, February 03, 2008

O último anjo morreu.
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O último anjo morreu.
Jaz por terra ao lado dos outros.
O céu não se fez escuro. Não derramou sobre a terra estéril, onde jaz o último anjo morto, o seu pesar. A terra não tremeu, não se abriu em fendas. A terra não tremeu nem mesmo quando o anjo morto caiu. Não se fez noite. O sol continuou brilhante no céu, com uma luz aguda, uma luz intensa que fura a retina a quem a desafia directamente.


«O último anjo morreu.»

Espalhou o vento soprando pelos quatro cantos do mundo e o mundo, indiferente, continuou a girar. E, até o vento, após contemplar pela segunda vez o anjo caído, seguiu o seu caminho em silêncio.

Não nasceram flores no solo que ele ocupa. Não brotou uma fonte de água pura onde o cadáver se acomoda. Não há lágrimas. Não brilhos. Não há qualquer tipo de sopro divino.

Ali. Ali na terra árida e estéril. Ali onde um é apenas um aditivo num resultado de muitos. Ali onde escorre pela fenda acre do solo algo semelhante a esperança, numa réstia diminuta e indiferente. Ali, ali jaz o último anjo. Morreu.

Não se ouviram os coros celestiais. A vibração do mundo não sofreu qualquer mutação. Tudo permaneceu intacto, até uma gota de água caindo provocaria mais impacto. Não havia sequer espaço para a ausência do batimento cardíaco do corpo sem vida do anjo. O último.

Todos os outros já tinham caído. Morrido no mesmo mundo apático. No mesmo mundo sorvedouro de energia celeste. Na mesma agonia paralela entre o nada e o esquecimento. Entre a dor e a indiferença. Não havia mais nada que um anjo pudesse fazer. Não havia mais razão de ser.

O último anjo morreu e não há importância nenhuma nisso. O mundo permanece intacto.
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O último anjo morreu.