Suave veneno.
Suave veneno que se espalha pelo meu corpo, me percorre toda, me embriaga, me deixa zonza, me faz cair, morta, morta mais uma vez para mim e para os outros.
Suave veneno que me acorda sob a luz forte dos projectores.
Um veneno tão suave que me despe da minha pele e me coloca noutra, uma pele nova, pronta a ser explorada e sou outra e sou quem não sou e sou tudo o que me permito a ser, sou, sem que mais ninguém saiba, uma que não eu e eles só desconfiam e não sabem que é veneno, um suave veneno que me percorre o corpo, e me sai pela boca num texto ensaiado, sai pela boca, não pela minha, pela da outra, da outra que o veneno arrancou de mim e à qual empresto o corpo.
Suave veneno esse que me faz dar de mim o que não tenho, me faz dar de mim a alma, que me coloca nua debaixo duma pele que não é minha, duma roupa que não é a minha, de palavras que não são as minhas, gestos que não os meus.
Não sou eu, sou ela e ela é quem dela fizeram.
Envolta em pós de mágica, de uma noite que tomba sempre que se apagam as luzes, uma noite que cai no meio de veludos e pancadas, uma noite enfeitada por estrelas sim, mas de alumínio, cartão, autocolante, estrelas, outras ainda cadentes, cadentes todas elas, como os homens… uma noite fingida, falsa, que rompe na repetição duma voz cansada, na premeditação de um gesto, no silêncio de uma sala cheia.
Enveneno-me suavemente através de um mundo em que nada é o que parece, onde tudo se constrói para enganar o mais atento dos espectadores, onde se contam histórias de ninguém para todos. Histórias que encantam ou incomodam, que aborrecem ou estimulam, histórias lidas e relidas por quem se dispõe a vivê-las, por quem lhes empresta o corpo e a alma, como eu.
Tomo o veneno e já não sou eu, não sou eu como me conheço, sou eu capaz de muitas outras coisas, tomo o veneno e o meu corpo acorda dum torpor que me tolda a razão, me faz falar de coisas que não conheço, me faz respirar fundo e querer mais.
Veneno, droga, qualquer coisa que me vai deixando viciada, agarrada, dependente.
Procuro, procuro o veneno que me leva de novo àquele mundo… mundo subversivo… mundo de anestesias, de momentos, de papel de cenário, de máscaras… de pessoas falsas, pessoas que não são e que vivem todas elas das que são e tomam o mesmo veneno que eu.
Nem os aplausos me sacodem daquele amolecimento, daquela embriaguez, ao contrário, são como uma segunda dose, uma dose mais forte de veneno, uma chicotada de adrenalina que me percorre a espinha, me põe os sentidos em alerta, todos ao mesmo tempo e sinto-me capaz de desaparecer por entre cada aplauso, cada barulho da multidão. Sinto os meus dedos entrelaçados nos de outrem, outro alucinado como eu, repetem-se os mesmos gestos, gastam-se as mesmas palavras, por convenção, por um não sei quê marcado a papel químico e no dia seguinte ele lá estará para entrelaçar as mãos dele nas minhas e beber do mesmo veneno suave que eu bebo.
Agora, ressacada desse veneno aguardo a próxima vez… o meu corpo deseja saciar mais uma vez essa sede, saciar-se daquela droga e aguarda, impaciente, a próxima vez que será sempre a última, até que eu sinta novamente o apelo, o grito, o desejo de me perder naqueles momentos de púrpura liquida… só mais uma vez a subida ao palco, a repetição, o aplauso.
Suave veneno este de querer representar.
Suave veneno que se espalha pelo meu corpo, me percorre toda, me embriaga, me deixa zonza, me faz cair, morta, morta mais uma vez para mim e para os outros.
Suave veneno que me acorda sob a luz forte dos projectores.
Um veneno tão suave que me despe da minha pele e me coloca noutra, uma pele nova, pronta a ser explorada e sou outra e sou quem não sou e sou tudo o que me permito a ser, sou, sem que mais ninguém saiba, uma que não eu e eles só desconfiam e não sabem que é veneno, um suave veneno que me percorre o corpo, e me sai pela boca num texto ensaiado, sai pela boca, não pela minha, pela da outra, da outra que o veneno arrancou de mim e à qual empresto o corpo.
Suave veneno esse que me faz dar de mim o que não tenho, me faz dar de mim a alma, que me coloca nua debaixo duma pele que não é minha, duma roupa que não é a minha, de palavras que não são as minhas, gestos que não os meus.
Não sou eu, sou ela e ela é quem dela fizeram.
Envolta em pós de mágica, de uma noite que tomba sempre que se apagam as luzes, uma noite que cai no meio de veludos e pancadas, uma noite enfeitada por estrelas sim, mas de alumínio, cartão, autocolante, estrelas, outras ainda cadentes, cadentes todas elas, como os homens… uma noite fingida, falsa, que rompe na repetição duma voz cansada, na premeditação de um gesto, no silêncio de uma sala cheia.
Enveneno-me suavemente através de um mundo em que nada é o que parece, onde tudo se constrói para enganar o mais atento dos espectadores, onde se contam histórias de ninguém para todos. Histórias que encantam ou incomodam, que aborrecem ou estimulam, histórias lidas e relidas por quem se dispõe a vivê-las, por quem lhes empresta o corpo e a alma, como eu.
Tomo o veneno e já não sou eu, não sou eu como me conheço, sou eu capaz de muitas outras coisas, tomo o veneno e o meu corpo acorda dum torpor que me tolda a razão, me faz falar de coisas que não conheço, me faz respirar fundo e querer mais.
Veneno, droga, qualquer coisa que me vai deixando viciada, agarrada, dependente.
Procuro, procuro o veneno que me leva de novo àquele mundo… mundo subversivo… mundo de anestesias, de momentos, de papel de cenário, de máscaras… de pessoas falsas, pessoas que não são e que vivem todas elas das que são e tomam o mesmo veneno que eu.
Nem os aplausos me sacodem daquele amolecimento, daquela embriaguez, ao contrário, são como uma segunda dose, uma dose mais forte de veneno, uma chicotada de adrenalina que me percorre a espinha, me põe os sentidos em alerta, todos ao mesmo tempo e sinto-me capaz de desaparecer por entre cada aplauso, cada barulho da multidão. Sinto os meus dedos entrelaçados nos de outrem, outro alucinado como eu, repetem-se os mesmos gestos, gastam-se as mesmas palavras, por convenção, por um não sei quê marcado a papel químico e no dia seguinte ele lá estará para entrelaçar as mãos dele nas minhas e beber do mesmo veneno suave que eu bebo.
Agora, ressacada desse veneno aguardo a próxima vez… o meu corpo deseja saciar mais uma vez essa sede, saciar-se daquela droga e aguarda, impaciente, a próxima vez que será sempre a última, até que eu sinta novamente o apelo, o grito, o desejo de me perder naqueles momentos de púrpura liquida… só mais uma vez a subida ao palco, a repetição, o aplauso.
Suave veneno este de querer representar.

