Thursday, March 29, 2007

a noite passada

a noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

a noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

a noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"
Sérgio Godinho

Sunday, March 25, 2007

já dizia Brecht...

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

como em outro dia qualquer




Hoje pego no teu sorriso com os meus sonhos, pego-te p’la mão e escancaro as portas do céu para mergulharmos em nuvens, constelações e voar... para longe, para sentir um formigueiro nos pés por cada astro que pisar-mos.
Hoje vou saltar no mar, revolver as areias do fundo do mar, mas só um bocadinho para não assustar os peixes, e encontrar a Atlântida dos sentidos que ficou, certo dia, perdida algures entre o leito da espuma das ondas que nos embalavam.
Vou correr de braços abertos junto ao rio e atirar-me do alto duma cascata de beijos e abraços para desaguar em pós de magia e sonho.
Hoje vou esperar que durmas para suster a minha respiração e ficar num momento tão curto e tão l o n g o de pura felicidade, daqueles que enchem o peito da gente e depois se expandem até não cabermos mais em nós e termos de nos permitir inundar tudo em volta.
Vou cantar ao abrir de todas as janelas e deixar a luz do sol dançar por entre as tábuas do chão até se pôr de cansaço no horizonte.
Vou rebolar colina abaixo, movida a risos, aterrar por entre flores e frutos dos teus lábios sumarentos, trincar cabelos e desejos.
Hoje vou te tirar para dançar, abraçar-te por entre dós, rés, mis, fás, sóis, cometas e pós de estrela e quando as luzes do salão baixarem e ficarmos só nós a rodopiar, vais ver que afinal já dançávamos um no outro ao som de tudo o que nos dissemos e ao ritmo de todos os carinhos.
Hoje (que momento tão vago)… Hoje, vou querer ser maior que eu, chegar mais longe, desprender-me de tudo a quanto me agarro, vou saber esperar, respeitar a essência de cada coisa, demorar-me em mim… percorrer-me e depois adormecer cansada apenas de sorrir e andar por aí a sonhar-me.
Dorme tu também.

Saturday, March 10, 2007

Monday, March 05, 2007

Hoje acordei com isto...

Our Hearts Will Beat As One - David Fonseca

Sunday, March 04, 2007

quando a noite cai...

Ao João que me cedeu a primeira frase do texto..


Ele percebe-me e eu cedo-lhe sempre que me deito. Nem sei porque é assim, mas é, sempre foi. Ele embala-me e leva-me para lugares que não recordo mas que sei serem só meus e da minha gente, daquela que mantenho viva ao manter-me vivo. Fecho os olhos e ele leva-me assim, por minha vontade, sem resistência, sem que tenha de me envolver à força e eu sei que estou seguro, que ele só me abandonará quando o sol despontar, quando não houver mais sonhos para sonhar, nem refúgios a visitar, nem pedaços de mim a perscrutar, ele conduz-me, leva-me para longe em mim. O sono…