beija-me.
beija-me agora que o mundo parou, que voltámos ao reino que juntos criámos um dia, por acaso, quase sem querer, sem ver o que nos esperava lá à frente.
diz-me o que encontraste, o que é que os teus olhos viram e o vento te contou, assim, baixinho, como uma brisa para ouvidos, feita expressamente para levar as palavras doces e calmas.
foi só um instante?! foi um brilho?! foi um riso!? quais foram as coisas que te conquistaram e te fizeram querer o mundo?! voar alto?! ser.
beija-me.
beija-me agora que são só cores as coisas que nos envolvem, que há o silêncio e somos só nós num abraço.
desaparecemos no tempo, no espaço, no lugar onde as coisas são só porque sim, porque alguém lhes disse que assim é que tinha de ser, porque alguém nomeou as coisas e elas se deixaram ficar assim... mas há ainda tanto por inventar.
desaparecemos e aparecemos melhor em nós, dentro de nós, para nós e não sei, mas creio que seja essa a magia que dá vida a esta ausência de sentido de sentir o mundo como ele é só porque sim, e se expande e cria a presença de sentir todas as coisas de cor e luz e brilho e riso e festa que se dá quando nos visitamos.
visita-me.
visita-me onde as ideias se criam, onde as palavras são só o que significam, onde elas se alinham e se multiplicam em sentidos. visita-me lá, onde a imaginação anda a correr à solta e a voar bem alto sempre que lhe apetece, onde não precisa de esperar pela razão.
visita-me também na razão, é engraçada, juro, faz lembrar uma fábrica, de rodas dentadas e engrenagens bem oleadas, uma linha de montagem em que a matéria prima dos sonhos que sou eu, se processam, se misturam, e acabam por sair do outro lado, produto já feito, uma desculpa engraçada para mostrar ao mundo que só se interessa por produtos acabados.
anda, tira os sapatos, põe-te confortável e descobre onde os meus vôos me levam, que as penas das minhas asas te façam cócegas e te rias sempre muito, alto, por gosto, porque, sabes, eu gosto de encher a minha casa de risos, mesmo que não sejam os meus, basta-me que sejam sinceros.
sabe-me. mas sem ser de cor. gosto do ar de surpresa e da euforia de descobrir coisas novas, de ser surpreendido... positivamente. mas atenção, espera de mim tudo... não sou diferente dos outros.
guarda-me. por agora. agora que o mundo parou e que estamos aqui só nós na casa um do outro. e beija-me, porque não sei quando te torno a visitar.