Tuesday, December 27, 2005

Teu Corpo Principia

Dou-te
um nome de água
para que cresças no silêncio.
Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.
Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)
Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.
Silêncio e sol – verdade,
respiração apenas.
Amor,
eu sei que vives num breve país.
Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.
Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.
O maravilha,
existo no mundo dos teus olhos.
O vida perfumada
cantando devagar.
Enleio-me na clara
dança do teu andar.
Por uma água tão pura
vale a pena viver.
Um teu joelho
diz-me a indizível paz.
António Ramos Rosa

Monday, December 26, 2005

So go

porque por algum motivo este filme hoje tem-me vindo à cabeça vezes sem conta.





Eternal Sunshine of the Spotless Mind


Joel: If only I could meet someone new. I guess my chances of that happening are somewhat diminished, seeing that I'm incapable of making eye contact with a woman I don't know.





...





Clementine: Joely?
Joel: Yeah Tangerine?
Clementine: Am I ugly?
Joel: Uh-uh.
Clementine: When I was a kid, I thought I was. I can't believe I'm crying already. Sometimes I think people don't understand how lonely it is to be a kid, like you don't matter. So, I'm eight, and I have these toys, these dolls. My favorite is this ugly girl doll who I call Clementine, and I keep yelling at her, "You can't be ugly! Be pretty!" It's weird, like if I can transform her, I would magically change, too.
Joel: [kisses Clementine] You're pretty.
Clementine: Joely, don't ever leave me.
Joel: You're pretty... you're pretty... pretty...

...

[Joel calls Clem on the telephone]
Clementine: What took you so long?
Joel: I just walked in.
Clementine: Do you miss me?
Joel: Oddly enough, I do!
Clementine: You said "I do" - I guess that means we're married!
Joel: I guess so!

...

Clem: I'm looking for my own piece of mind.
Joel: I can't see anything I don't like about you.
Clem: But you will...you will think of things. And I'll get bored with you and you'll feel trapped because that's what happens with me.
Joel: Okay.
Clem: Okay. Okay.

...
Clementine: My embarrassing admission is I really like that you're nice, right now

...

Clementine: I wish you'd stayed.
Joel: I wish I'd stayed, too. NOW I wish I'd stayed. I wish I'd done a lot of things. I wish I'd... I wish I'd stayed... I do.

...

Clementine: Look man, I'm telling you right off the bat I'm high maintenance. So I'm not gonna tip-toe around your marriage or whatever it is ya got goin' on there. If you wanna be with me, you're with me.
Joel: Okay.




...

Clementine: Let me show you something... come on...
Joel: I think I heard a crack.
Clementine: It's not gonna crack, or break, or... it's so thick!... Show me which constellations you know.
Joel: Um... oh... I don't... know any.
Clementine: Show me which ones you know!
Joel: Okay... okay... oh! There's Osidius.
Clementine: Where?
Joel: Right there... see? Sort of a swoop and a cross, Osidius the Emphatic.
Clementine: You're full of shit, right?
Joel: Nope. Osidius, right there, swoop and cross.
Clementine: Shut the fuck up!

...




Joel: I could die right now, Clem. I'm just... happy. I've never felt that before. I'm just exactly where I want to be.

...

Clementine: Joel, I'm not a concept. Too many guys think I'm a concept or I complete them or I'm going to make them alive, but I'm just a fucked up girl who is looking for my own peace of mind. Don't assign me yours.
Joel: I remember that speech really well.
Clementine: I had you pegged, didn't I?
Joel: You had the whole human race pegged.
Clementine: Probably.
Joel: I still thought you were going to save me. Even after that.

...

Clementine: This is it, Joel. It's going to be gone soon.
Joel: I know.
Clementine: What do we do?
Joel: Enjoy it.



...



Clementine: You know me, I'm impulsive.
Joel: That's what I love about you.

...


Joel: [In the house on the beach] I really need to go. I should catch my ride.
Clementine: So go.
Joel: I did. I walked out the door. I was too nervous. I thought, maybe you were a nut. But you were exciting. I felt like I was a scared little kid.
Clementine: You were scared?
Joel: Yeah. I thought you knew that about me. I ran back to the bonfire, trying to outrun my humiliation.
Clementine: Was it something I said?
Joel: Yeah, you said so go. Said it with such disdain you know?
Clementine: Oh, I'm sorry.
Joel: It's ok.
Clementine: I wish you had stayed.
Joel: I wish I had stayed to. I swear to god I wish I had stayed. I wish I had done a lot of things. I wish... I wish I had stayed.
[Walking out]
Clementine: Joely? What if you stayed this time?
Joel: I walked out the door. There's no memory left.
Clementine: Come back and make up a good-bye at least. Pretend we had one.

...








[Mary reads to Dr. Mierzwiak out of "Bartlett's Familiar Quotations"; the lines are from Alexander Pope's poem "Eloisa to Abelard"]
Mary: How happy is the blameless Vestal's lot!
The world forgetting, by the world forgot
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray'r accepted, and each wish resign'd.
.....................
Eternal Sunshine of the Spotless Mind
Para quem não conhece, clique aqui, vale a pena ver, é um dos meus Top 5 que ou muito me engano ou me espera amanhã à tarde.

Friday, December 23, 2005

Ao menos isso..

"O FMI confirmou que a partir de 1 de Janeiro de 2006 vai anular a dívida acumulada de 19 países pobres, num total que ultrapassa os dois mil e oitocentos milhões de euros. Graças a pressões do G8 e de diversas instituições não-governamentais, este perdão foi concedido às seguintes nações: Benim, Bolívia, Burkina Faso, Etiópia, Gana, Guiana, Honduras, Madagáscar, Mali, Moçambique, Nicarágua, Níger, Ruanda, Senegal, Tanzânia, Uganda, Zâmbia, Cambodja e Tajiquistão."
Somos tão generosos... *rolls eyes*

Monday, December 19, 2005

No me 4C

Sem dares conta perdeste-o.
Não sabes como foi que o foste encontrar noutro olhar.
Não percebes que esse brilho que trazias e que vias era em ti.
Pensas em como perdeste tempo, como deixaste que as coisas tomassem lugar sem que as agarrasses, sem que entendesses que há coisas que são sem que para isso tenham de vir a ser.
Pensas em como estiveste tão perto, em como sentiste tão intensamente e não entendes como foi que de repente as tuas certezas se desvaneceram no ar como o fumo de um cigarro, no entanto pairam para sempre na tua história e na minha.
Pensas que não valeu a pena, nada valeu a pena, porque afinal eu não era o que tu procuravas, eu não era o teu para sempre, eu não era a metade.
Não entendes que as coisas que são para nós eventualmente acabam por nos passar p’las mãos e compete-nos a nós saber agarrá-las.
Não entendes que o para sempre é só e apenas o tempo que as coisas verdadeiras duram.
Não entendes que nem sempre somos só metade duma metade e não podemos esperar encontrar a metade para sermos inteiros, p’lo contrário tens de ser inteiro para encontrar a metade, de outro modo que espécie de equilíbrio seria esse em que uma metade não é metade sem a outra e não é inteiro sem a mesma?!
Melhor que seja assim, porque esse brilho eu nunca consegui ver. Melhor p’ra mim que posso soltar-me da obrigação que era fazer-me ver esse brilho e da frustração que era olhar, olhar, olhar e não ver nada além do meu reflexo nos teus olhos.
Nem me queria assim forçada...
Ver-me vidrada, sem espaço para respirar, presa a uma vontade que não era a minha, mas que se fortalecia por outros laços.
Agora que já não me vês, não daquela maneira, posso escrever outras histórias no meu olhar e tu podes finalmente imaginar finais diferentes para ti.
Perdeste o brilho do meu olhar.
Ainda bem.

Saturday, December 17, 2005

Tens noção?!...

Thursday, December 15, 2005

Porque achei que este texto dizia muita coisa..

" Perdoas-me?
É só quando te tenho nos meus braços, despido de medos e de convenções, só quando deixas que a tua alma reine no lugar da tua mente, que verdadeiramente te reconheço. No resto do tempo, és apenas aquilo que deixaste que fizessem de ti. E isso entristece-me. Entristece-me que não desenvolvas todo o potencial que encerras. Entristece-me que não acredites em coisas que não se vêem. Entristece-me perceber até onde foram capazes de te corromper. Entristece-me que permitas que te manipulem dessa forma. Entristece-me que não consigas ver a tua imagem reflectida nos meus olhos, tal como és. Tal como só tens coragem de ser quando estás comigo. E entristece-me, sobretudo, que tudo isto te passe ao lado, camuflado por esse nevoeiro no meio do qual decidiste viver.Eu sei que te devia deixar cometer todos os erros sem pestanejar. Afinal, são as tuas escolhas. Mas se isso até era relativamente fácil quando estavas longe de mim, tornou-se uma verdadeira tortura agora que voltaste a estar ali, ao alcance de um esticar de braço. Apetece-me gritar-te que há pessoas que despertam o pior que há em nós, para que te afastes delas. Apetece-me segurar-te quando te vejo caminhar lentamente em direcção ao abismo. Apetece-me colocar-te um dedo nos lábios e calar com um shiu as decisões desastrosas que me anuncias com um misto de orgulho e de medo. Apetece-me segurar-te a mão e guiar-te os passos. Perdoar-me-ás esta vontade, que não nasce da arrogância mas apenas do mais básico instinto protector? E quando finalmente acordares, perdoar-me-ás ter ficado de braços cruzados? Independentemente do que venha a acontecer, quero repetir-te o que já te disse há tantos anos atrás, para que não restem dúvidas: serei tua amiga para sempre, ainda que o sempre não exista. "

Rosa.

Descaradamente "roubado" de: Sorrisos aos molhos , não deixem de visitar.

Monday, November 28, 2005

Just Like Chocolate

You are Milk Chocolate
A total dreamer, you spend most of your time with your head in the clouds.You often think of the future, and you are always working toward your ideal life.Also nostelgic, you rarely forget a meaningful moment... even those from long ago.
What Kind of Chocolate Are You?

Sunday, November 27, 2005

Reflexos ( part II )

(...)
Encontrámo-nos todos os dias dessa semana.

- Mostras-me coisas que eu nunca vi, que sempre estiveram lá e nas quais eu nem reparei. Acabou por dizer, trazendo-me de volta ao mundo das coisas que são.
- Tu também me mostras coisas que eu não vejo, fazes-me pensar a vida doutro modo.

Era tão difícil explicar-lhe aquilo que eu sentia, que me fazia dizer-lhe aquilo.
Antes dele as coisas eram diferentes. Ainda me lembro quando nos conhecemos, antes disso eu sentia-me desencontrada do mundo, das coisas que nos ligam à terra, mas também não estava ligada ao céu, tinha um mundo só meu, preso numa redoma de cristal que não deixava ninguém entrar mas que também não me deixava sair. Ele tinha-me feito descobrir uma saída, um modo de escapar à redoma de vidro, deixando o meu mundo de sonhos intacto para que eu o pudesse visitar sempre que precisasse, mais, com o tempo ele próprio tinha encontrado uma entrada para esse mundo e agora fazia parte dele, ajudava-me a cuidar de todas as coisas bonitas que por lá andavam.

- Eu não sei de nada… não percebo o mundo, não percebo as pessoas, não acredito nelas, por muito que eu queira não sei depositar a minha fé nos homens, nem mesmo no mundo e duvido de qualquer outra força que possa existir. Só sei da força natural das coisas, mas não sei vê-la, não a consigo perceber e perco-me todos os dias um pouco mais. És o único elo palpável, a única ligação que eu não entendo mas que aceito sem pôr à prova.
- Sabes mais do que aquilo que pensas, sabes, mas não queres saber, pensas que estás mais segura assim e enquanto pensares assim vais depender sempre de alguém. Sou o elo até tu perceberes que não te ligo a coisa nenhuma a não ser a mim, é uma ilusão, um dia vais procurar outras coisas, ver outros elos, perceber que aquilo que precisavas de mim já não existe mais, só em ti e então voas para longe.
- Não. Porque o que me liga a ti nem eu sei explicar o que é, não quero que tenhas razão quando dizes que eu só preciso de ti para perceber o mundo duma maneira e que quando souber que maneira é essa te vou largar, é mentira. Ensinaste-me tanto, quando nos conhecemos eu era uma tolinha, andava perdida num mundo de ninguém a dar importância às coisas erradas.
-Tu já sabias essas coisas todas, sabe-las dentro de ti, eu não fiz nada, não te mostrei nada que não tivesses já visto.

Calei-a com a minha resposta. Não voltou ao assunto. O facto de me ter dito tudo aquilo incomodava-me. Não gostava que ela me visse melhor e maior que ela. Eu não era nem sou melhor que ninguém… tantos defeitos… tantos… tanta humanidade.
Não sei se ela percebia a importância que tinha para mim, o quanto significava, o que me tinha ensinado com aquela ingenuidade, toda aquela boa vontade no mundo que ela julgava ser eu a ter.
Ela não sabia, nunca saberia, porque eu nunca seria capaz de lho dizer. Não pelas palavras certas, pelos gestos certos, nunca, nunca estes traduziriam tudo o que ia cá dentro de cada vez que eu percebia em mim a sua força, a sua vitalidade. Adorava cada qualidade e cada defeito, única numa espécie de 6 biliões… sorri para comigo.
Voltei à minha leitura. Ela permanecia calada a olhar o mar.
Quando já me tinha abstraído do que se passava em redor e estava completamente mergulhado no livro, ela voltou a falar:

- Tens ideia da quantidade de gente que teve de morrer e nascer para estarmos aqui hoje? A quantidade de ocorrências, coincidências, decisões que foram necessárias para que hoje pudéssemos estar aqui assim, eu a olhar o mar e tu a ler esse livro?! Já viste como foi preciso que tudo conspirasse a favor?!

Sorri-lhe. Afinal não estava a olhar o mar, estava a olhar a História, a entrelaçar suposições e contos na cabeça. Continuei calado, sabia que aquela era mais uma pergunta que era de ela para ela como tantas outras que lhe saíam pela boca para todos e para ninguém. Perguntas cuja resposta ela queria conseguir sozinha e que só formulava em voz alta para poder dar-lhes outra forma que não a do pensamento.
Fiquei a olhá-la por uns momentos. Ela não via o mar calmo à sua frente, mas o mar agitado dentro dela, eu só sabia de tal facto porque a tempestade batia-lhe nos olhos, parecia preocupada, desiludida com as respostas que eu lhe tinha dado minutos antes, apeteceu-me pegar-lhe nas mãos, envolvê-la num abraço, fazer-lhe sentir que tudo o que tinha sido antes só importava na medida em que nos trazia o agora, o agora que já não o era porque não existe.

Monday, November 21, 2005

um ano

Ena pah! Um ano de blogagem e textos deprimentes.
Parabéns pra mim.

Tuesday, November 15, 2005

Variedades


Variedades dos efeitos do amor.

"Nascemos para amar; a humanidade
Vai tarde ou cedo aos laços da ternura:
Tu és doce atractivo, ó formusura,
Que encanta, que seduz, que persuade:
Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão n'alma se apura,
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade:
Qual se desanima nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas
Amor ou desfalece ou pára, ou corre,
e, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre. "
Bocage
Ps- Para nós!

Wednesday, November 09, 2005

Reflexos ( part I )

Estávamos os dois na esplanada à beira mar. Estávamos os dois em silêncio.Tu lias, eu desenhava, lembraste?
Olhei o mar, ao fundo via-se um pequeno barco. O sol ia alto e então os meus olhos pousaram-se em ti.
Estavas lindo. Àquela hora o sol batia-te em cheio no lado direito da cara, tinhas o ar de quem estava longe, alheio a tudo num mundo só teu. Perguntei-me se faria parte desse mundo, nesse momento ergueste os olhos do papel e sorriste-me, soube que sim e sorri-te de volta, voltaste à tua leitura e eu voltei ao meu desenho.

Naquele dia estávamos os dois à beira mar. Eu lia enquanto ela desenhava. Estava linda. A brisa do mar batia-lhe nos cabelos revelando-lhe a cara.Gostava de sentir que o seu silêncio não me incomodava, de facto, era reconfortante.
Por momentos senti os seus olhos enormes, curiosos e brilhantes a espreitar-me de cima do livro, irresistivelmente dei comigo a contemplá-los, estava feliz por ela estar comigo. Sorri.

Cheguei ao final do desenho, continuavas a ler. Admirei-te por uns momentos e facilmente dei comigo a pensar em nós. Quando despertei estavas a olhar p’ra mim. Então disse-te:
- Somos tão diferentes, tu e eu.
Continuaste calado por uns momentos.
- Porque dizes isso?
- Tu és tão melhor que eu.
- Não sou melhor que ninguém.

Ela calou-se. Fiquei à espera duma resposta, qualquer coisa que me fizesse entender.

-Somos diferentes.
- Explica.
- Não sei.
- Tenta…

Não sabia como explicá-lo, não de maneira a que ele entendesse. Éramos bastante diferentes. Acima de tudo amava-o por essa diferença, ele tinha o dom de me fazer ver o mundo ao contrário.

- Vês as coisas com outros olhos.

Acabou por dizer. No fundo eu sabia o que ela queria dizer. Eu sabia que tinha havido um momento no início em que as coisas eram realmente diferentes, não por eu ser melhor mas porque ela era apenas uma força em potência.
Lembro-me tão bem do dia em que a conheci. Estava sentada na esplanada a ler um livro, quase como estávamos agora. Em cima da mesa estava um sumo de laranja. Eu tinha-me sentado na mesa oposta a tua, do outro lado da esplanada que àquela hora da manhã estava deserta. Pedi um chá e imaginei o porquê de estares ali, o que estarias a ler, o porquê de te achar irresistível apenas porque lias um livro e bebias um sumo de laranja, apenas porque os teus olhos pareciam brilhar mais e o sorriso com que brindavas o livro parecer iluminar tudo em redor. Eras tão inocente. Mais tarde ou mais cedo deixarias de encontrar prazer num livro, num sumo de laranja ou numa manhã na esplanada. O chá chegou.
Estava a olhar em volta quando levantaste os olhos do livro e olhaste para mim. Sorriste-me. O sorriso mais lindo e mais espontâneo que alguém alguma vez me havia dado. Fiquei sem saber muito bem como reagir, acabei por te dar um sorriso tímido.
Acabaste o teu sumo sem que os nossos olhos se tornassem a encontrar, eu estava escrever, lembro-me que nessa altura escrevia sobre as coisas da vida como elas são, sem sofismas, sem sonhos, sem floreados, escrevia a força bruta do mundo e ainda assim encontrava-lhe beleza.
Escrevia absorto do resto, o teu sorriso era já só uma remota lembrança perdida entre os primeiros parágrafos.
Não te vi levantar, nem pagar o sumo, nem marcares o livro com a dobra do canto da página, nem pegares nas tuas coisas, nem mesmo vi que vinhas ter comigo.
Sentas-te mesmo à minha frente. Olhei surpreendido para ti, Tu estavas a olhar-me com um sorriso e então exclamaste: “ Olá! Chamo-me Maria.”, não estava nada à espera daquilo, “ Oi… João.” “ Estava ali sentada e não consegui deixar de reparar em ti aí a escrever como se mais nada existisse e o mundo fosse acabar amanhã.” “ Nunca se sabe.” sorri-lhe, ela olhou curiosa para os meus papéis “ É sobre o quê?! És escritor? “, se fosse outra pessoa provavelmente ter-me-ia sentido incomodado mas ela serenava-me, divertia-me, era espontânea sem se preocupar muito com aquilo que eu poderia pensar dela.
“ Não sou escritor nenhum” sorri divertido “ Escrevo para mim, sobre nós… é complicado…” “ Hum… Parece interessante, seja o que for que estejas a escrever deve ser sério, estás cinzento. “ e fez uma cara esquisita que me deu vontade de rir “ Não importa…” e fechei o caderno dando por encerrado aquele texto, “ Reparei que estavas a ler, que livro é?” “Ana Karenina, do Tolstoi, já leste?” “Não, ainda não, mas já me falaram nele.” “ Estou a gostar, há uma parte que diz:
‘No tempo infinito, na infinitude da matéria, no espaço infinito forma-se uma bolha, que se mantém por algum tempo, depois rebenta. Essa bolha sou eu!’. ” depois olhou para o relógio e disse “ Tenho de ir, gostei de te conhecer, vemo-nos por aí.” deu-me um beijo e partiu sem me dar tempo sequer para dizer fosse o que fosse.
Encontrámo-nos todos os dias dessa semana.
...

Sunday, November 06, 2005

Tiga =)



adopt your own virtual pet!

That's life!


esta imagem diz-me tanto... "é a vida!..."

Wednesday, November 02, 2005

O silêncio




O silêncio deixa-me ileso, e que importância tem?

Se assim tu vês em mim
alguém melhor que alguém.



Sei que minto
pois o que sinto
não é diferente de ti.
Não cedo. Este segredo é frágil e é meu.


Eu não sei
tanto sobre tanta coisa
que às vezes tenho medo
de dizer aquelas coisas que fazem chorar.

Quem te disse coisas tristes não é igual a mim .

Sim , eu sei que choro ,
mas eu posso
querer diferente para ti .


Eu
não
sei
tanto sobre tanta coisa
que ás vezes tenho medo

de dizer aquelas coisas que fazem chorar .




E não me perguntes nada. Eu não sei dizer ...

Silence 4

Sunday, October 30, 2005

Grito


AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHH

HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!

(inspira fundo... recupera o fôlego)


AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH

HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH

HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!



( Obrigada!)



Apesar de me sentir incrivelmente só, de achar que há coisas que deixaram de valer a pena, pessoas que deixaram de valer a pena pra mim e em mim, apetece-me dançar à chuva e celebrar o mundo.

Apetece-me rebolar na terra, inspirar o ar limpo, sentir a chuva fria a molhar-me a cara, sentir os pés descalços na relva verde, molhada..
Apesar de me apetecer desaparecer, apetece-me celebrar a vida.

Monday, October 24, 2005

mas quanto amor imperfeito...

Madalena Em Contrição

onde vais pelo passeio

diva

de um casino em ruínas

onde vais num devaneio

de quem ateia mil e uma camas

deixas no ar ao passar
o perfume dos melodramas

és aquela que se despe
sem a mínima ciência, aquela

que se usa sem agitar
sem ter de fingir,

fingir ternura

deixas no ar ao passar
o perfume dos melodramas

olha um fariseu a rondar a esquina

à tua procura

parece um cristo encoberto

de passo incerto

e o olhar baço de quem conhece o deserto

é um beija-flor nocturno

só quer chorar no teu regaço

não fiques arrependida

não lhe invejes a vida

ele vem do lado direito

onde há flores e casamentos

mas quanto amor imperfeito

há nesses perfeitos momentos.

Clã.

Sunday, October 16, 2005

,,,/|Mourning|\,,,


Morreu!

O quê?!

Não sei!

Mas alguma coisa foi.

Ainda bem!

K.

Uma voz gritava:

"Cortem-se os laços que nos prendem.
Acabem-se os sonhos, as ilusões, as esperanças.
Arranquem-se do corpo todas as forças, todas as lágrimas, todos os risos.
Coloquem-se os corpos entre a espada e a parede.
Suprimam-se as sombras, os passados, os fantasmas.
Calem-se as vozes de revolta.
Subjuguem-se as almas.
Não importa o preço que se paga para se atingir o que se quer.
Não importa a destruição, o caos.
Importa ganhar!
Importa vencer!
Importa poder! "

Era a voz dum mundo.



Infelizmente é o mundo que temos, infelizmente cada vez a carneirada é maior, infelizmente continuamos todos de braços cruzados à espera dum salvador.

What goes around comes around.





Saturday, October 15, 2005

ver para além de ti não faz sentido

Lição de Vôo nº 1





não disse


nada



porque nada havia para dizer,



amordacei

as horas por preencher.


não disse
nada
porque nada havia para dizer,
eventualmente o peito deixa de doer.






hoje

toquei

num

avião

sem

tirar

os

pés

do

chão.



não
me deixes


ver para além de ti não faz sentido.

Linda Martini.

Thursday, October 06, 2005

Sorri-me!




É pena constatar, que as pessoas que me conhecem melhor são aquelas que sabem, precisamente, o que me dizer para que eu me sinta a melhor ou pior pessoa do mundo.
Pena que hoje me tenhas feito sentir que não sou a melhor pessoa do mundo.

Wednesday, October 05, 2005

O poeta é um fingidor.


Autopsicografia


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

De Fernando Pessoa

Saturday, September 24, 2005

Amor Combate


Amor Combate


eu quero estar lá quando tu tiveres de olhar para trás.
sempre quero ouvir aquilo que guardaste para dizer no fim.
eu não te posso dar aquilo que nunca tive de ti, mas não te vou negar a visita às ruínas que deixaste em mim.
se o nosso amor é um combate então que ganhe a melhor parte.
o chão que pisas sou eu.
o nosso amor morreu quem o matou fui eu.





Linda Martini

Thursday, September 15, 2005

Tico e Teco_parte II

- Ainda ‘tás acordado?
- Ãahhn?!
- Se ainda ‘tás acordado?
- Não!
- Oh! ‘Tás-me a responder.
- Deixa-me.
- Deixo porquê?! Acorda!!!
- Quero dormir!
- Não dormiste já o bastante?
- Não!
- Anda lá… Acorda!
- Não! Não quero! Estou farto disto.
- Disto o quê?!
- Disto. Da escuridão, do vazio, deste silêncio, deste eco infernal, de acordar com as peúgas ensopadas, de ouvir risos e nunca me rir…
- Está bem, está bem.
- Mas, diz lá, o que é que tu queres?
- Oh… Agora não digo.
- Não te armes em parvo. Eu é que estou chateado, eu é que ‘tava a dormir, o que é que querias afinal?!
- Oh…
- Vamos, agora não consigo dormir.
- Está bem.

- Então?! Agora calaste-te?!
- Shh! Olha para cima.
- O que é?
- Estás a olhar?
- Estou, não vejo nada!
- Repara bem.
- Tu estás é a gozar comigo e eu a ver…
- Shhh!!! A sério, repara bem.
- Ahhh!!! Estou a ver!!! Brilha!
-Também os vês?!
- Sim, são pequenos brilhantes.
- O que será?!
- Não sei.
- Vamos ver?!
- Não… e o medo?!
- Oh, vamos lá.
- É tão bonito…
- Mais uma razão… vamos lá!
- Não!
- Vamos!!!
- Ei!!! Larga-me!!! Como queres trepar até ali?!?
- Não sei. Anda vamos!
- Isto não vai correr nada bem.
- Vai sim, cala-te!
- Olha, vem aí um desejo.
- Onde?!?
- Ali, não ouves?
- Não.
- Shh! Vamos apanhá-lo.
- Mas… que… wooow!!!!
- Estamos a subir!!! Estamos a subir!!!
- É… e sabes o que dizem… quanto mais alto se está, maior é a queda.
- Não estás feliz?! Vamos a subir, em direcção aos brilhantes.
- Eu não. Tenho medo, os desejos não são nada seguros.
- São sim.
- Não, não são!
- Então, e não estás feliz?!
- Não! Está escuro, estou a subir em direcção a alguma coisa que brilha e que não sei o que é, tenho uns medos à solta e este desejo… quer-me parecer que vai em excesso de velocidade.
- Os desejos são mesmo assim, às vezes nascem das vontades repentinas e são rápidos, outros nascem do tédio, da mesmice… outros ainda nascem dos sonhos, do querer ser… Tivemos sorte, onde quer que tenha nascido este desejo é dos rápidos!
- Rápido e cheio de solavancos, parece que não sabe para onde vai.
- Blée! És um chato, sempre cheio de racionalizaçõezinhas, cheio de coisinhas, “ ai porque não isto, porque não aquilo, agora tenho as meias molhadas não posso andar, agora tá escuro, agora tenho luz…”. Bah! Nem sei porque é que ainda te trago comigo.
- Olhe meu menino, fique sabendo que eu, ao contrário de outros que por aí andam, nasci junto da razão.
- Que outros?! Eu é?! Tas a falar de mim?!
- Se a carapuça te serve…
- Vá… diz lá!
- Sim tu, tu és um louco, eu é que não sei porque é que ainda ando atrás de ti, ando sempre a tentar cuidar de ti, proteger-te e tu sempre a meter-me em sarilhos, sempre contra mim. És um louco! Já dizia o outro “ Quem sai aos seus não degenera.” , assim és tu, não negas as origens.
- Pah, chama-me o que tu quiseres, não nego as origens não, nasci junto ao coração e depois?! Sou tanto como tu!
- Ahhh!!! Olha a luz!!!
- Está-se a aproximar cada vez mais, ‘tamos quase!
- Ai meu Deus!!!
- Aos três saltamos.
- O quê?!
- Um…
- O que disseste?!?
- Dois…
- Não oiço nada, estamos a ir muito depressa!!!
- Três!!! Salta!!!

Monday, September 12, 2005

I'll never know


Thank you for this bitter knowledge
Guardian angels who left me stranded
It was worth it, feeling abandoned
Makes one hardened but what has happened to love
You got me writing lyrics on postcards
Then in the evening looking at the stars
But the brightest of the planets is Mars
Then what has happened to love
So I will opt for the big white limo
Vanity fairgrounds and rebel angels
You can't be trusted with feathers so hollow
Your heaven's inventions, steel eyed vampires of love


You see over me, I'll never know
What you have shown to other eyes
Go or go ahead
and surprise me

Say you've lead the way to a mirage
Go or go ahead and just try me
Nowhere's now here smelling of junipers
Fell of the hay bales, I'm over the rainbows
But of Medusa kiss me and crucify
This unholy notion of the mythic power of love
Look in her eyes, look in her eyes
Forget about the ones that are crying
Look in her eyes, look in her eyes
Forget about the ones that are crying
Go or go ahead

Rufus Wainwright - Go or Go Ahead

Thursday, August 25, 2005

Perdi noção do tempo.
Perdi noção do tempo que passei em pé, em frente da parede húmida, áspera e decadente.
No escuro encarei a parede que nunca vira, mas que sabia estar lá, podia tocar-lhe, sentir-lhe o cheiro a mofo… até na boca.
A princípio julguei que ouvia o silêncio, a princípio só ouvia o silêncio, mais tarde, de tanto fitar a parede comecei por ouvir aquilo que não eram mais que palavras soltas, mais tarde frases e com o passar do tempo as conversas tornavam aquele lugar ensurdecedor, quase que me levaram à loucura quando finalmente entendi que aquelas vozes estavam todas em mim . Não vinham da parede, não existiam ao meu redor, eram ideias que tinham nascido, existiam por eu estar ali, frente à parede nua.
Com o tempo também aprendi a controlar as vozes.
Com o tempo deixei de sentir o meu corpo, primeiro as pernas, depois os braços e por fim todo o corpo, deixei de saber se era eu quem esperava ali, inerte, a queda da parede.
Com o tempo perdi a noção do tempo e no tempo perdido eu já não me sabia encontrar.
Das vozes ensurdecedoras só já existia um murmúrio, dizia baixinho, como que com medo da oponente parede, que ninguém chagaria para a derrubar, que o tempo continuaria a passar e eu ali ficaria, inerte, à espera.
O que era um murmúrio transformou-se numa ladainha e, de novo, quase enlouqueci.
Certa vez, numa dessas vezes em que quase enlouquecia, senti uma picada, no escuro não soube dizer o que tinha sido, se animal ou coisa me tinha atingido, sei que essa picada salvou meu corpo que dormia há muito e gritei de dor.
Com esse grito a parede abriu uma pequena fenda, que eu não vi porque estava escuro mas senti na solidez da parede. Ao aperceber-se deste fenómeno a ladainha cessou.
Tudo ficou calmo por um instante que eu não sei se foi curto ou comprido porque não sabia mais que tempo era. Esse instante foi como o fechar dum ciclo. A voz que outrora me enlouquecera, dizia-me agora que era possível deitar abaixo a parede, a inércia a que me haviam condenado estava prestes a acabar.. talvez se eu gritasse mais um pouco…
A princípio duvidei, como seria possível?
Porém, antes que o ciclo que se iniciasse me levasse de novo a fitar a parede, dei um passo em frente ( quase bati na parede), estendi a mão e senti, de novo, no escuro a fenda, rodeei-a com as mãos, encostei os lábios às mãos e um som tímido, quase inaudível fez frente à imponente parede. Perdi a noção ao tempo que este som levou a tomar forma de grito, o tempo que demorou a embrenhar-se na fenda da parede, o tempo que levou a encontrar um caminho até ao outro lado, a difundir-se, a alastrar-se a todas as fundações da esmagadora parede.
Perdi o tempo ao tempo que gritei, até que por fim, um grito que outrora fora surdo, dividiu a parede em mil bocados e, em tempo nenhum a parede caiu e um luz imensa encheu a divisão.
Foi-me difícil abrir os olhos ao principio, mas pouco tempo depois habituaram-se à claridade e pude finalmente ver do que a parede me separava.
Abri mais os olhos de espanto.
De costas para a parede derrubada fitei, esmagada pela crueldade das evidências, que outra parede me fitava, intacta, forte e áspera como a que derrubara.
Perdi noção do tempo que me permiti a olhá-la, de pé, parada, até sentir o torpor a que o meu corpo se subjugava, até ouvir nada mais que silêncio.
Perdi noção do tempo e deixei-me ficar.

Há sempre mais paredes a derrubar.

Thursday, July 28, 2005

Zero Chance


think i know the answer
i stumbled on and all the world fell down
and all the sky went silent
cracked like glass and slowly
tumbled to the ground
they all say if you look hard
you'll find your way back home
born without a friend
and bound to die alone
I'm thinking of your highness
and crying long upon the loss
i've found
and on the plus and minus
zero chance of ever
turning this around
Why doesn't anyone believe
in loneliness
stand up and everyone will see
your holiness
They say if you look hard
you'll find your way back home
born without a friend
and bound to die alone

Zero Chance - Soungarden

Wednesday, July 27, 2005

Um dia... 24 horas.


Há um dia em que acordas e vês que o tempo passou.

Quem és tu?
Nada.
Ninguém.

Acordas um dia e a tua vida está em branco.
Vazia.
Nada.
Ninguém.
Não tens nada a que possas chamar de só teu.


Falhaste.

A vida falhou-te.
Desejas-te com todas as forças. De que adiantou? Não te calhou nada em sorte.
O tempo passou e tu és nada.
Fazes parte dum mundo em que não passas de um espectro, uma sombra do que foste um dia, um dia em que respirar era fácil, em que respirar não doía.



És nada.

Mas pior que o nada em si é ser um nada antes sido.
Ser um nada que já foi um dia tudo e que quer voltar a ser.
Queres voltar a ser quem eras, mas acordas um dia e não te encontras "ááe o que foi nao volta a ser, mesmo que muito se queira, e querer muito é poder, e o que foi não volta a ser".

Onde fui?
Não sei.
Nada.
Ninguém.

Dás-te conta de que nada faz sentido, falta-te o sonho tornado real.
Falta-te o amor.
Falta-te a esperança.
Falta-te...Não sabes bem o quê e o relógio não pára.
Quem sou?
Nada.
Ninguém.

À medida que os ponteiros avançam, queres descobrir-te, já não queres ser nada.
Está na hora.
Mas custa tanto.
Queres ser alguém e não consegues.
Procuras uma mão.
Nada.
Ninguém.

De repente páras.Olhas em redor. Mas como? Será que ninguém ouve? Será que ninguém vê?
Nada.
Ninguém.



Dás volta ao que trazes contigo:
sonhos desfeitos;
lágrimas gastas;
gritos surdos;
recordações usadas...

Perguntaste: Onde estão?
os risos;
as alegrias;
os sonhos;
a esperança;
a força;
a fé...

Dás-te conta que as perdeste, não as trazes já contigo. Arrancaram-tas ao longo do caminho.


Não há mais nada.

O tempo passa e não sabes o que fazer de ti... talvez fechar os olhos, desistir.
De que vale uma vida que é um lamento?
De que vale uma vida sem significado, vazia?
Não são essas as vidas que caíem no esquecimento?
Acordas um dia e nada, nada parece ter mudado e o relógio continua a andar.
Desejas que ele pare. Que a vida pare. Porque sabes, que enquanto o relógio anda tu não consegues apanhar o que sobra de ti. O tempo esgota-se e tu não te achas.

Um dia acordas e há um colete de forças que te prende os braços. E onde estão as mãos que te enxugam os olhos? Presas, inúteis, dormentes atrás das costas.
Esse colete de forças é o colete que te deixa louca, que te prende os sonhos, que toma como refém a esperança de que é possível mudar.
Quantas vezes já te tentaste libertar? Caíram no esquecimento os momentos em que achaste ser possível quebrar as fivelas, soltar as amarras.
Acordaste um dia e deste conta que te tinham vestido um colete de forças, devagar, sem veres e quando deste por ti eras nada, eras ninguém.


Um dia acordas e queres trincar a vida, morder a esperança, beijar a felicidade, não consegues e descobres uma mordaça.
Como? Como foi que acabaste assim?
Não sabes.
Um dia acordas, queres gritar-te ao mundo e não és capaz, estás amoradaçada. O grito, ninguém o ouve, a mordaça ninguém ta tira. É tarde e o tempo não pára.
Um dia acordas, estás amordaçada, vestes um colete de forças, queres fugir, encontrar uma saída então olhas em redor e descobres um labirinto de gente e mentiras que te cerca. Queres encontrar uma saída mas perdes-te nos outros, há alguém que te engana, que te trai, que te conduz pelo caminho errado... mais um... vês que não há saída.
Queres saber quem és...
O tempo passa...
Nada...
Ninguém...

O relógio deu uma volta completa. Marcou todas as horas, minutos e segundos, avançou imparável mesmo quando desejaste que ele parasse por um só instante.
O relógio deu uma volta completa.
Não sabes quem és.
Não há sonhos.
Não há esperança.
Não há nada.
Não há ninguém.



Acabou.
Dás-te conta do fim.
Acabou e tu és nada.
És ninguém.
Respiras de alívio.
Um dia não acordas.
Acabou.

Tico e Teco _ parte I

-Está escuro aqui.
-Onde estás?
-Aqui!
-Onde?
-Aqui!
-Ah..Está escuro aqui.
-É.
-Porquê?
-Ela está triste.
-Porquê?
-Sente que se apagou uma luz.
-E apagou.
-É.
-Que voz é esta?
é esta?
-Que voz?
voz?
-Esta.
ta.
-Ah!!
Ah!!
É o eco.
eco.
-O eco?
eco?
-Sim.
im.
-Porquê?
quê?
-Está vazia.
vazia.
Sente-se só.
só.
-Porquê?
quê?
-Deixaram-na sozinha.
sozinha.
-Mas e os risos?
risos?
-Eram dos outros.
outros.
-Ah...
Ah...
Também sentes?
-O quê?
-O frio.
-Ah, o frio. Sinto.
-Está frio aqui.

-Porquê?
-É da humidade.
-Humidade?
-Sim.
-Olha! Está a correr água.
-É... água salgada.
-Ajuda-me!! Está a chegar-me aos joelhos.
-É.
-Socorro!!!Não sei nadar!!
-Nem eu.
-Socorro!!!
-Olha, está a baixar.
-Ufa! Esta água salgada, de onde vinha?
-Dos olhos.
-Dos olhos?
-É.
-Porquê?
-Porque o coração está triste.
-Ah! E quando o coração está triste ela inunda-se de água salgada?

-E porque é que o coração está triste?
-Porque está escuro.
-Escuro porque ela está triste?
-Sim.
-Ah... e mais?
-E porque ouve um eco.
-Porque ela se sente sozinha?
-Sim.
-Ah! Vai ser sempre assim?
-Não sei.
-Não sabes?!?!?!?!
-Não.
-Hmmm... Lembraste de ontem?
-Não.
-Ontem também foi assim.
-Foi?!?!
-Foi. Tenho quase a certeza. Eu estava aqui sossegado quando de repente acordei aflito com a água pelos joelhos... quase que me afogava.
-Ah.
-Perguntei-te o mesmo de hoje.
-Então porque estás a perguntar hoje de novo?
-Não sei, acho que estava á espera de outras respostas, outras razões, mas foi igual.
-Foi?
-Foi.
-Ah..
-Olha e se fossemos dar uma volta? Estou farto de estar aqui!
-Uma volta? Onde? Nesta escuridão?
-Não tens praí uma luz qualquer?
-Não. A última esperança fundiu-se.
-Ah pois foi.
-Pois foi.
-Então... Vamos às apalpadelas.
-Às apalpadelas? Não! Isso não ia dar resultado.
-Porquê?
-Por causa do medo.
-Do medo? Que medo?
-O medo de ser feliz.
-Ah!...Esse medo, pois é. E nós não vencemos esse medo?
-Sim, acho que esse vencíamos, mas... o outro... o outro é ainda maior.
-Outro?!?!
-Sim.
-Ai!!! Estou com medo!!! Que outro??
-O medo de sofrer!
-Ah! Já ouvi falar... Disseram-me que magoa.
-Então secalhar o melhor é ficarmos aqui. Talvez amanhã...
-Talvez...

Monday, July 25, 2005