Outra começa ali.
Tuesday, July 01, 2008
Tuesday, June 17, 2008
Monday, June 16, 2008
Monday, May 12, 2008
Saturday, May 03, 2008
O que há em mim é sobretudo cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos
Friday, April 25, 2008
Saturday, April 12, 2008
«(...) O candeeiro aceso iluminava com a sua luz fria e clara o conhecido cenário do pequeno quarto: duas cadeiras, uma coluna com um bustozinho de criança em pedra, uma mesinha e, ao fundo, a cama revolta, o revólver no chão, e o filho morto. Em cima da mesa, coberta com um debotado pano de chita de ramagens, uma carta, e nessa carta um nome, um lindo nome de mulher: Maria del Pilar.
Não gritou, não disse nada; os pobres não gritam. A morte faz parte do seu lúgubre cortejo de amigos, tem um caminho no seu leito e um lugar à sua mesa; quando chega, pode levar tudo; quando transpõe a porta, aberta de par em par, com a sua presa, não vê à sua volta a escoltar-lhe o fatídico negro vulto negro, senão cabeças curvadas num gesto de resignação, braços caídos, braços de quem deu tudo, de quem não tem consigo as aparências da revolta, mas, no fundo, é cheia dum imenso, dum infinito desapego por tudo. Os pobres vêm ao mundo já sem nada; o pouco que a vida lhes deixa é emprestado. Que lhes hão-de tirar que seja deles?! Aos pobres toda a gente chama desgraçados. (...)»
in, A Paixão de Manuel Garcia, Florbela Espanca
Friday, March 21, 2008
... e o desejo do menino era ter olhos de vidro e um colete à prova de bala. talvez ainda um capacete, desses com que se anda de mota.
o menino queria ser o primeiro a chegar ao centro da terra. a ser rodas dentadas, a ser rebites e juntas, rolamentos e motor.
o menino queria, queria e queria, fazia birra. chorava e esperneava. atirava-se para o chão e embaraçava os pais, como aqueles meninos que se vêem nos centros comerciais, daqueles que se atiram para o chão e embaraçam os pais.
nem todos os mimos, nem todas as prendas chegavam.
não tinha mais vontades. só aquelas.
vidro, colete, capacete, primeiro, terra, rodas, rebites, juntas, rolamentos, motor.
o menino queria ser o primeiro a chegar ao centro da terra. a ser rodas dentadas, a ser rebites e juntas, rolamentos e motor.
o menino queria, queria e queria, fazia birra. chorava e esperneava. atirava-se para o chão e embaraçava os pais, como aqueles meninos que se vêem nos centros comerciais, daqueles que se atiram para o chão e embaraçam os pais.
nem todos os mimos, nem todas as prendas chegavam.
não tinha mais vontades. só aquelas.
vidro, colete, capacete, primeiro, terra, rodas, rebites, juntas, rolamentos, motor.
Sunday, March 09, 2008
Sunday, February 24, 2008
Há um adeus que se desprendeu da ponta da vontade de ficar…
Que nem é bem adeus porque não parte
Porque não é divino…
Não que seja pagão…
É adeus…
adeus que não te afastas,
adeus que não te vais,
adeus que ficas,
permaneces,
que te fixas
e entranhas,
que te consomes
e consomes quem com a mão aberta a abanar
de um lado
Adeus que eu vou-me embora, mesmo que não dê um único passo.
Adeus que já se faz tarde e a estrada é longa.
Adeus, adeus e até à próxima!
Este adeus é mentiroso
Este adeus é
Até já.
Que nem é bem adeus porque não parte
Porque não é divino…
Não que seja pagão…
É adeus…
adeus que não te afastas,
adeus que não te vais,
adeus que ficas,
permaneces,
que te fixas
e entranhas,
que te consomes
e consomes quem com a mão aberta a abanar
de um lado
para o outro,
com aquele sorriso palerma das saudades que ainda não são
mas que já se adivinham,
o mesmo sorriso palerma do
“que foi tão bom que tivessem vindo, adeus, adeus, voltem sempre!!!”,
e a mão vai abanando num gesto que quer dizer adeus,
mas que não diz coisa nenhuma.
mas que já se adivinham,
o mesmo sorriso palerma do
“que foi tão bom que tivessem vindo, adeus, adeus, voltem sempre!!!”,
e a mão vai abanando num gesto que quer dizer adeus,
mas que não diz coisa nenhuma.
Adeus que eu vou-me embora, mesmo que não dê um único passo.
Adeus que já se faz tarde e a estrada é longa.
Adeus, adeus e até à próxima!
Este adeus é mentiroso
Este adeus é
Até já.
Wednesday, February 13, 2008
Sunday, February 10, 2008
Há coisas que encontramos esquecidas numa gaveta, esta foi uma delas...
Setúbal, 13 Maio de 1996
Querido Diário esta semana na minah escola têm acontecido coisas muito estranhas.
Eu e a Sofia brincámos às Navegantes, eu sou a da água e ela a do vento.
Nas aulas aprendi o V=a x a x a e V= c x l x alt, é muito fácil.
Na sexta-feira eu e a escola vamos a Arraiolos.
Eu gosto de andar de bicicleta.
Amanhã espero ter mais aventuras pela frente.
Mariana.
É bom lembrar as coisas simples.
Sunday, February 03, 2008
O último anjo morreu.
.
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O último anjo morreu.
Jaz por terra ao lado dos outros.
O céu não se fez escuro. Não derramou sobre a terra estéril, onde jaz o último anjo morto, o seu pesar. A terra não tremeu, não se abriu em fendas. A terra não tremeu nem mesmo quando o anjo morto caiu. Não se fez noite. O sol continuou brilhante no céu, com uma luz aguda, uma luz intensa que fura a retina a quem a desafia directamente.
«O último anjo morreu.»
Espalhou o vento soprando pelos quatro cantos do mundo e o mundo, indiferente, continuou a girar. E, até o vento, após contemplar pela segunda vez o anjo caído, seguiu o seu caminho em silêncio.
Não nasceram flores no solo que ele ocupa. Não brotou uma fonte de água pura onde o cadáver se acomoda. Não há lágrimas. Não brilhos. Não há qualquer tipo de sopro divino.
Ali. Ali na terra árida e estéril. Ali onde um é apenas um aditivo num resultado de muitos. Ali onde escorre pela fenda acre do solo algo semelhante a esperança, numa réstia diminuta e indiferente. Ali, ali jaz o último anjo. Morreu.
Não se ouviram os coros celestiais. A vibração do mundo não sofreu qualquer mutação. Tudo permaneceu intacto, até uma gota de água caindo provocaria mais impacto. Não havia sequer espaço para a ausência do batimento cardíaco do corpo sem vida do anjo. O último.
Todos os outros já tinham caído. Morrido no mesmo mundo apático. No mesmo mundo sorvedouro de energia celeste. Na mesma agonia paralela entre o nada e o esquecimento. Entre a dor e a indiferença. Não havia mais nada que um anjo pudesse fazer. Não havia mais razão de ser.
O último anjo morreu e não há importância nenhuma nisso. O mundo permanece intacto.
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O último anjo morreu.
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O último anjo morreu.
Jaz por terra ao lado dos outros.
O céu não se fez escuro. Não derramou sobre a terra estéril, onde jaz o último anjo morto, o seu pesar. A terra não tremeu, não se abriu em fendas. A terra não tremeu nem mesmo quando o anjo morto caiu. Não se fez noite. O sol continuou brilhante no céu, com uma luz aguda, uma luz intensa que fura a retina a quem a desafia directamente.
«O último anjo morreu.»
Espalhou o vento soprando pelos quatro cantos do mundo e o mundo, indiferente, continuou a girar. E, até o vento, após contemplar pela segunda vez o anjo caído, seguiu o seu caminho em silêncio.
Não nasceram flores no solo que ele ocupa. Não brotou uma fonte de água pura onde o cadáver se acomoda. Não há lágrimas. Não brilhos. Não há qualquer tipo de sopro divino.
Ali. Ali na terra árida e estéril. Ali onde um é apenas um aditivo num resultado de muitos. Ali onde escorre pela fenda acre do solo algo semelhante a esperança, numa réstia diminuta e indiferente. Ali, ali jaz o último anjo. Morreu.
Não se ouviram os coros celestiais. A vibração do mundo não sofreu qualquer mutação. Tudo permaneceu intacto, até uma gota de água caindo provocaria mais impacto. Não havia sequer espaço para a ausência do batimento cardíaco do corpo sem vida do anjo. O último.
Todos os outros já tinham caído. Morrido no mesmo mundo apático. No mesmo mundo sorvedouro de energia celeste. Na mesma agonia paralela entre o nada e o esquecimento. Entre a dor e a indiferença. Não havia mais nada que um anjo pudesse fazer. Não havia mais razão de ser.
O último anjo morreu e não há importância nenhuma nisso. O mundo permanece intacto.
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O último anjo morreu.
Saturday, January 26, 2008
Friday, January 25, 2008
Dorme.
Dorme meu amor e deixa o manto dos sonhos cobrir teu sono.
Deixa que te embale em fantasias, em desejos de cor e brilho.
Dorme meu amor que eu aqui te velo, neste abraço que te dou, em cada beijo que te aconchega.
Dorme meu amor porque amanhã será outro dia que nos vai sacudir da cama para o mundo lá fora.
Dorme meu amor e deixa-me pensar que aqui, no silêncio dos nossos corpos nus cobertos, na quietude da casa que também já dorme, eu nos posso guardar para sempre assim, enrolados um no outro, tu dormindo em sonhos felizes e eu feliz velando o teu sono.
Dorme meu amor e deixa o manto dos sonhos cobrir teu sono.
Deixa que te embale em fantasias, em desejos de cor e brilho.
Dorme meu amor que eu aqui te velo, neste abraço que te dou, em cada beijo que te aconchega.
Dorme meu amor porque amanhã será outro dia que nos vai sacudir da cama para o mundo lá fora.
Dorme meu amor e deixa-me pensar que aqui, no silêncio dos nossos corpos nus cobertos, na quietude da casa que também já dorme, eu nos posso guardar para sempre assim, enrolados um no outro, tu dormindo em sonhos felizes e eu feliz velando o teu sono.

Saturday, January 19, 2008
Sunday, January 13, 2008
Sunday, January 06, 2008
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