Era uma vez, porque todas as estórias começam por “ Era uma vez” e por isso, desta vez também era.
Era uma vez, um príncipe que ao contrário dos outros príncipes não era encantado nem lutava com dragões, nem subia à torre da princesa, nem falava em rima, nem tinha reino ou cavalo branco.
Era uma vez, um príncipe cujo maior tesouro que possuía era o que trazia dentro de si.
Ao contrário dos tesouros terrenos que estão escondidos e se adivinham com mapas e combinações de cofres, o tesouro do príncipe estava bem à vista de todos, escondido apenas debaixo do céu e mesmo assim, de vez em quando, era avistado entre as estrelas ou sentado na lua a receber na cara a luz do sol.
Era uma vez, um príncipe que percorria o mundo, o seu cavalo era a sua imaginação, esticava os braços e voava, via os lagos, os montes, os vales, conheceu cidades e aldeias, viajou ao sabor do vento, ao sabor do sonho e viu a beleza do mundo, compreendeu o todo e o particular, contemplou os desertos e riu nas lezírias, galgou dunas e percorreu descalço os campos e vivia assim feliz, sem reino e sem cavalo.
Um dia, demorou-se junto a um lago, deitou-se à sombra a fazer castelos nas nuvens e ao fim de desenhar a segunda torre adormeceu. Quando acordou o sol ia alto e a água mantinha-se viva no lago. Respirou fundo. Levantou-se. Abeirou-se do lago e molhou os pés. Mergulhou as mãos e na água que elas trouxeram consigo mergulhou a cara.
Olhou o lago em toda a sua largura e do outro lado, lá ao longe, reparou num riso que saltava entre os caniços. Agarrado ao riso, dançando em roda, estava uma menina.
A menina ainda não tinha dado conta da presença do príncipe, tentava apanhar, aqui e ali, pontinhos brilhantes que eram como as ideias e ria, ria porque o sol lhe fazia cócegas nos olhos e as gotinhas de água que lhe salpicavam o vestido a apanhavam sempre ao fim de um outro salto.
Ao fim de uma meia hora de saltos e risadas a menina caiu cansada por cima das flores que cobriam a beira do lago.
Primeiro o príncipe estremeceu, pensou que a menina se tinha ferido, depois, no instante seguinte, entendeu que ela descansava e olhava o céu. Olhando para cima viu suspenso sobre a sua cabeça o castelo, estava incompleto, mas mesmo assim perguntou-se se a menina o veria, se quereria visitá-lo.
Quando a olhou de novo ela tinha o dedinho esticado e desenhava no céu coisas novas, talvez uma parte nova do castelo, talvez uma ponte que transpusesse o fosso que o circundava.
(...)
