Sunday, August 20, 2006

Era uma vez... (o começo)

Era uma vez, porque todas as estórias começam por “ Era uma vez” e por isso, desta vez também era.

Era uma vez, um príncipe que ao contrário dos outros príncipes não era encantado nem lutava com dragões, nem subia à torre da princesa, nem falava em rima, nem tinha reino ou cavalo branco.

Era uma vez, um príncipe cujo maior tesouro que possuía era o que trazia dentro de si.
Ao contrário dos tesouros terrenos que estão escondidos e se adivinham com mapas e combinações de cofres, o tesouro do príncipe estava bem à vista de todos, escondido apenas debaixo do céu e mesmo assim, de vez em quando, era avistado entre as estrelas ou sentado na lua a receber na cara a luz do sol.

Era uma vez, um príncipe que percorria o mundo, o seu cavalo era a sua imaginação, esticava os braços e voava, via os lagos, os montes, os vales, conheceu cidades e aldeias, viajou ao sabor do vento, ao sabor do sonho e viu a beleza do mundo, compreendeu o todo e o particular, contemplou os desertos e riu nas lezírias, galgou dunas e percorreu descalço os campos e vivia assim feliz, sem reino e sem cavalo.

Um dia, demorou-se junto a um lago, deitou-se à sombra a fazer castelos nas nuvens e ao fim de desenhar a segunda torre adormeceu. Quando acordou o sol ia alto e a água mantinha-se viva no lago. Respirou fundo. Levantou-se. Abeirou-se do lago e molhou os pés. Mergulhou as mãos e na água que elas trouxeram consigo mergulhou a cara.
Olhou o lago em toda a sua largura e do outro lado, lá ao longe, reparou num riso que saltava entre os caniços. Agarrado ao riso, dançando em roda, estava uma menina.
A menina ainda não tinha dado conta da presença do príncipe, tentava apanhar, aqui e ali, pontinhos brilhantes que eram como as ideias e ria, ria porque o sol lhe fazia cócegas nos olhos e as gotinhas de água que lhe salpicavam o vestido a apanhavam sempre ao fim de um outro salto.
Ao fim de uma meia hora de saltos e risadas a menina caiu cansada por cima das flores que cobriam a beira do lago.
Primeiro o príncipe estremeceu, pensou que a menina se tinha ferido, depois, no instante seguinte, entendeu que ela descansava e olhava o céu. Olhando para cima viu suspenso sobre a sua cabeça o castelo, estava incompleto, mas mesmo assim perguntou-se se a menina o veria, se quereria visitá-lo.
Quando a olhou de novo ela tinha o dedinho esticado e desenhava no céu coisas novas, talvez uma parte nova do castelo, talvez uma ponte que transpusesse o fosso que o circundava.
(...)

Tuesday, August 15, 2006

Senhora partem tã tristes
Meus olhos por vós meu bem
Que nunca tam tristes vistes
Outros nenh~us por ninguem

Tam tristes, tam saudosos
Tam doentes da partyda
Tam canssados, tã chorosos,
Da morte mays desejosos
Cem myl vezes que da vida
Partem tam tristes os tristes
Tam fora d'esperar bem
Que nunca tam tristes vistes
Outros nenh~us por ninguem.


João Roiz de Castelo Branco,
Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.