(...)Quando a olhou de novo ela tinha o dedinho esticado e desenhava no céu coisas novas, talvez uma parte nova do castelo, talvez uma ponte que transpusesse o fosso que o circundava.
Sonhando com a menina e com o seu riso o príncipe adormeceu novamente, mas sorrindo, uma nova esperança enchia-lhe o peito.
Era uma vez, um príncipe sem capa nem espada, mas que já tinha lutado ou pelo menos tinham feito guerra com ele. Tinham-no ferido, já havia sofrido vários golpes, alguns quase fatais, felizmente sofrera também alguns golpes de sorte e as feridas cicatrizavam lentamente dentro dele. O peito ainda lhe doía.
Era uma vez, um príncipe que tinha lutado do lado do mundo, mas o mundo não queria lutar as batalhas do príncipe, o mundo tinha outras guerras, outros combates e certo dia, o príncipe, que sempre tinha sido aliado do mundo, sentiu-o a apunhalá-lo pelas costas. Agora o mundo era assim, na maioria das vezes mais um campo de batalha, mais um inimigo. Como era difícil combater o mundo.
Era uma vez, um mundo que as pessoas julgavam ser delas. O mundo era assim, encantado, não como o príncipe porque o príncipe não era encantado, mas como o riso da menina que rodava sobre ela mesma à volta de um lago.
O mundo era das pessoas. As pessoas faziam do mundo um lugar hostil, ferido como o peito do príncipe, desacreditado como o peito do príncipe.
Era uma vez, uma menina. Essa menina era como as outras meninas. Não era nem gata borralheira nem princesa, não tinha vestidos de seda nem usava sapatinhos de cristal. Não sonhava com príncipes nem ia a bailes.
Era uma vez, uma menina que falava com o rio e com o sol, que ria e rodopiava encantada com o brilho das ideias e os salpicos da água dum lago, essa menina era como as outras meninas, mas ria e rodopiava encantada com o brilho das ideias e os salpicos da água dum lago, rodopiava até cair de cansada. Caía, mas nada lhe doía, nem o peito, nem o riso e por entre as flores recuperava o fôlego e a energia.
Era uma vez, uma menina que conhecia o mundo mágico da magia das coisas que estão aos olhos de todos, mas que só alguns são capazes de ver.
Essa menina era feliz porque o sol lhe fazia cócegas no olhar, porque tinha um lago onde chapinhar, porque tinha a erva fofa a servir-lhe e travesseiro enquanto, de dedo esticado, desenhava no céu.
Começava a anoitecer e o céu estava a ficar bastante desenhado, a menina estava a ficar cansada, levantou-se, sacudiu o vestido e perseguiu os pirilampos até casa, mas não sem antes se despedir com o sorriso do lago, da erva macia, do céu e das flores.
Quando o príncipe despertou já havia estrelas no céu. Mal se apercebeu disso procurou a menina do outro lado do lago. Nada. A menina não estava lá. Não havia nenhum sinal da sua passagem. O príncipe ficou triste, gostava de ter podido admirá-la e decorar cada gesto que tão naturalmente fazia.
O príncipe começou a lembrar a menina. A menina lembrava-lhe um mundo que ele há muito não via, em que há muito deixara de acreditar ser real. Uma dúvida tomou-o de assalto: e se a menina não fosse real?! E se tivesse sido só um sonho? E se o riso que ele ouvira não fosse mais do que o mundo a rir-se dele como já havia feito tantas vezes?
O príncipe estava cansado. Já tinha visto tantas coisas, voado sobre tanto chão, já tinha visto tantas meninas, cruzado com tantos homens, alguns príncipes, como ele, ou quase, porque não se encantavam com meninas que sorriem à água dos lagos, nem tem cócegas nos olhos.
Era uma vez um sonho que um príncipe julgava ter tido. O príncipe olhou para cima. O céu estava particularmente estrelado nessa noite, não sabia se por ter visto tanto brilho durante o dia e esse brilho tivesse ido embora com a menina deixando a noite mais escura ou se por o brilho que vira durante o dia estivesse ainda reflectido no céu.
Deitou-se a admirá-lo. Demorou-se nele e só então reparou que aquele céu tinha o dedo da menina. Sorriu ao perceber finalmente o porquê de tanto brilho. Adormeceu.
(...)
Friday, January 19, 2007
Fumo_I
Desenrolou o plástico à volta do maço de tabaco, abriu-o e tirou um cigarro.
-Tens lume?!
-Sabes bem que não.
Levantou-se, foi até ao móvel da sala, abriu uma das gavetas e tirou um isqueiro, puxou fogo ao cigarro susteve um pouco a respiração e exalou o fumo pela boca.
Naquela fracção de segundo em que o fumo lhe entrou pela boca e se demorou na garganta ela perguntou-se o porquê de ainda insistir naquilo.
Ele sentou-se novamente em frente dela.
Ela olhava a mesa.
-Então?
-Então?! Não sei.
- Pensei que tinhas algo para me dizer.
-Tinha, mas já não sei se deva. – estava insegura, aquela pequena fracção de segundo em que o ar se demorou na garganta dele levou-a para longe, para o tempo em que ainda esperava dele apenas que ele fosse como ela o via.
Ele rodou o cigarro no cinzeiro, olhou para ela, procurou os seus olhos.
Ela estava assim, meio distante, meio cá e meio lá, rodou os pensamentos no cinzeiro e olhou-o.
-Tens andado desaparecido.
-Muito trabalho, tu sabes.
-Sim, sei.
-Oh! Não ponhas essa cara.
-Qual cara?!
-Essa… essa que fazes sempre que as coisas não correm como queres. Cara de desapontada.
- Ilusões… Tão depressa se criam como se destroem.
- Talvez tenhas razão… Talvez não.
- Talvez…
- Estás bonita. – disse depois de dar um bafo no cigarro.
- Estou cansada.
- Fica. Só por esta noite.
- Não, hoje não vim para ficar contigo, vinha-te falar.
- Então fala.
Apagou o cigarro e mexeu-se na cadeira, ela estava diferente, mais decidida, mais forte, apesar de toda a segurança que fazia transparecer no fundo ele sabia que estava insegura, isso atraía-o, por uma lado aquela força meio bruta, por outro o sentido de protecção… porque não dizia logo o que queria?!
- Não é fácil.
- Estás cansada, falamos disso amanhã. – Disse pegando-lhe na mão.
- Não! – Respondeu tirando a mão debaixo da dele
Porquê aquela reacção agora?! Tinha desaparecido, nunca estava lá, sempre em trabalho segundo dizia, e agora que ela precisava de lhe explicar tanta coisa, ele queria que ela ficasse, queria-a… sentiu-se perdida, era sempre assim, recaía, deixava-se envolver de novo e quando dava por ela estava de novo naquele ciclo vicioso.
Sunday, January 14, 2007
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