Há um dia em que acordas e vês que o tempo passou.
Quem és tu?
Nada.
Ninguém.
Acordas um dia e a tua vida está em branco.
Vazia.
Nada.
Ninguém.
Não tens nada a que possas chamar de só teu.
Falhaste.
A vida falhou-te.
Desejas-te com todas as forças. De que adiantou? Não te calhou nada em sorte.
O tempo passou e tu és nada.
Fazes parte dum mundo em que não passas de um espectro, uma sombra do que foste um dia, um dia em que respirar era fácil, em que respirar não doía.
És nada.
Mas pior que o nada em si é ser um nada antes sido.
Ser um nada que já foi um dia tudo e que quer voltar a ser.
Queres voltar a ser quem eras, mas acordas um dia e não te encontras "ááe o que foi nao volta a ser, mesmo que muito se queira, e querer muito é poder, e o que foi não volta a ser".
Onde fui?
Não sei.
Nada.
Ninguém.
Dás-te conta de que nada faz sentido, falta-te o sonho tornado real.
Falta-te o amor.
Falta-te a esperança.
Falta-te...Não sabes bem o quê e o relógio não pára.
Quem sou?
Nada.
Ninguém.
À medida que os ponteiros avançam, queres descobrir-te, já não queres ser nada.
Está na hora.
Mas custa tanto.
Queres ser alguém e não consegues.
Procuras uma mão.
Nada.
Ninguém.
De repente páras.Olhas em redor. Mas como? Será que ninguém ouve? Será que ninguém vê?
Nada.
Ninguém.
Dás volta ao que trazes contigo:
sonhos desfeitos;
lágrimas gastas;
gritos surdos;
recordações usadas...
Perguntaste: Onde estão?
os risos;
as alegrias;
os sonhos;
a esperança;
a força;
a fé...
Dás-te conta que as perdeste, não as trazes já contigo. Arrancaram-tas ao longo do caminho.
Não há mais nada.
O tempo passa e não sabes o que fazer de ti... talvez fechar os olhos, desistir.
De que vale uma vida que é um lamento?
De que vale uma vida sem significado, vazia?
Não são essas as vidas que caíem no esquecimento?
Acordas um dia e nada, nada parece ter mudado e o relógio continua a andar.
Desejas que ele pare. Que a vida pare. Porque sabes, que enquanto o relógio anda tu não consegues apanhar o que sobra de ti. O tempo esgota-se e tu não te achas.
Um dia acordas e há um colete de forças que te prende os braços. E onde estão as mãos que te enxugam os olhos? Presas, inúteis, dormentes atrás das costas.
Esse colete de forças é o colete que te deixa louca, que te prende os sonhos, que toma como refém a esperança de que é possível mudar.
Quantas vezes já te tentaste libertar? Caíram no esquecimento os momentos em que achaste ser possível quebrar as fivelas, soltar as amarras.
Acordaste um dia e deste conta que te tinham vestido um colete de forças, devagar, sem veres e quando deste por ti eras nada, eras ninguém.
Um dia acordas e queres trincar a vida, morder a esperança, beijar a felicidade, não consegues e descobres uma mordaça.
Como? Como foi que acabaste assim?
Não sabes.
Um dia acordas, queres gritar-te ao mundo e não és capaz, estás amoradaçada. O grito, ninguém o ouve, a mordaça ninguém ta tira. É tarde e o tempo não pára.
Um dia acordas, estás amordaçada, vestes um colete de forças, queres fugir, encontrar uma saída então olhas em redor e descobres um labirinto de gente e mentiras que te cerca. Queres encontrar uma saída mas perdes-te nos outros, há alguém que te engana, que te trai, que te conduz pelo caminho errado... mais um... vês que não há saída.
Queres saber quem és...
O tempo passa...
Nada...
Ninguém...
O relógio deu uma volta completa. Marcou todas as horas, minutos e segundos, avançou imparável mesmo quando desejaste que ele parasse por um só instante.
O relógio deu uma volta completa.
Não sabes quem és.
Não há sonhos.
Não há esperança.
Não há nada.
Não há ninguém.
Acabou.
Dás-te conta do fim.
Acabou e tu és nada.
És ninguém.
Respiras de alívio.
Um dia não acordas.
Acabou.