Saturday, December 29, 2007

A folha estava em branco.
Não havia nada que lhe apetecesse realmente dizer.
Nada a partilhar com o resto do mundo.
A folha estava em branco e a inspiração devia ter ficado por detrás do muro de celulose que tinha frente e verso, mas que não rimava.
Talvez houvesse dias em que todas as emoções lhe afloravam aos dígitos e ela ultrapassava esse muro e passava para o lado de lá da malha de fibras a que chamava papel. Talvez houvesse dias em que ela era uma malha de fibras a que chamava Ana (ou a que chamavam) e no entanto, essa malha de fibras revelava-se assim, em branco, tal qual folha de papel, por preencher, ainda há espera de transpor um muro de ideias feitas, palavras batidas, sonhos mastigados e jogados fora, pessoas cinzentas que andavam tão perdidas quanto ela pelas entrelinhas de um grande livro.
Talvez houvesse dias em que tinha histórias para contar, dessas, para crianças, de Era uma vez e viveram felizes para sempre, dias em que talvez fosse possível esticar o feliz para sempre em vez de ser feliz num era uma vez. Noutros teria, certamente, contos do fantástico desses que nos deixam a pensar em coisas que nos podiam acontecer, mas que (in)felizmente acontecem sempre aos outros.
Talvez houvesse dias em que procurasse o verdadeiro sentido das palavras em si e, de balança e régua, pesasse e medisse, com a precisão de um alquimista procurando transformar pedra em ouro, a melhor maneira de tentar transformar as suas palavras em poesia.
Talvez houvesse dias em que todos os seus sentidos estivessem despertos e sentissem tudo de todas as maneiras, qual Caeiro, e as coisas simples andassem à solta, apaixonando os olhos dos mais atentos, dos que dão o sentido aos sentidos que se escrevem num pedaço de papel.
Talvez houvesse dias em que sentada em frente duma folha vazia lhe quisesse dar alma, corpo, um lugar e um espaço, uma razão de ser.
Porém, dias havia em que não lhe saía nada. A cabeça era um marulhar de ideias e no papel não havia uma só letra, um só risco ou ponto. Nesses dias não havia nada a dar ao mundo, não havia partilha ou palavra certa e a folha ficava em branco à espera dos dias de talvez.

Friday, December 28, 2007

Para ouvir...

Led Zeppelin

John Bonham - Drums
John Paul Jones - Bass
Jimmy Page - Lead Guitar
Robert Plant - Vocals

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Saturday, December 22, 2007

O Sorriso

Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade

Tuesday, December 18, 2007

Random Thought

»»Desconfio que a estupidez é um dos maiores desafios aos limites das capacidades do Homem.

Monday, December 17, 2007



Elevas-me a um estado de sonhos, assim, sem mais.
Chegas até mim, alcanças-me, tocas-me através de um sorriso, de um olhar, mas sobretudo desses ideais que soltas cá para fora quando ninguém está a ver… na verdade, acho que ninguém quer realmente ver. Às vezes, até eu tenho dificuldades em perceber porque reparei, porque quero ver.
Se consegui ou não, não sei.
Penso que nunca conseguimos realmente ver nada. Quem somos tolda-nos sempre a visão. Ainda assim, há imagens que nos surpreendem e se num instante nos prendem, no momento seguinte, libertam-nos, alargam-nos os horizontes.
É incrível a influência que exercemos no mundo pelo simples facto de sermos qualquer coisa.
A posição que eu assumo em relação ao mundo e aos outros limita indiscutivelmente a minha realidade e ainda assim, não posso afirmar com propriedade em que consiste o real.
Talvez seja mais certo dizer que afecta o meu real e o meu irreal. E se o irreal existe, por contraponto ao que é real, então talvez as barreiras se esbatam e eu esteja apenas a falar de qualquer coisa abstracta que acaba por ser una em si mesma. E se falo de tudo, talvez acabe por falar de nada.
No entanto, se entrar pelo caminho da multiplicidade, da variedade, talvez possa considerar realidades, das quais me aproprio por relação às diferentes situações em que me coloco e pelas diferentes relações que mantenho com diversos sujeitos, partindo do princípio que cada um destes mesmos sujeitos vive uma realidade própria ou múltiplas realidades pela sua condição social.
E que crédito tem uma realidade em detrimento da outra?! O que é que as valida?
O que é socialmente aceitável? O que é comum? O que é palpável? O que é perceptível sensorialmente?
Até que ponto e com que legitimidade uma realidade se sobrepõe a outra? Fundamenta-as a realidade e/ou a essência? E não é o real tido, muitas das vezes, como o que é verdadeiro?
O meu palpite é que não pode haver uma comprovação do real, porque no fundo, o real acaba por ser exactamente o que dele fazemos. Talvez alguns afirmem que o real é, sobretudo o que é um conhecimento de facto comprovado por um número plural.
O real é todas as coisas e coisa nenhuma. O real é, sobretudo, o indivíduo.

Thursday, December 13, 2007

No país das Maravilhas

Até que ponto conhecemos o espaço que nos rodeia?
Se o sol não incidisse sobre tudo e não transportasse até nós as formas das coisas, que percepção teríamos das mesmas?
Quão desligados somos dos detalhes porque assumimos uma realidade como certa?
Todos os dias, Alice, percorria o mesmo caminho, sem surpresas, sem contemplações, a novidade de um dia era esquecida no momento seguinte, sem que, no entanto, representasse de novo uma novidade no dia seguinte.
Todos os dias, Alice, percorria o mesmo caminho, mas não o conhecia de facto, após tantos anos a paisagem tinha-se tornado num grande vazio e assim tinha sido toda a sua vida.
Assim acontecia também com o tempo.
O tempo passava sem que Alice sequer se apercebesse. Claro que muitas vezes estava atrasada para o emprego e sabia que às oito era a hora a que voltava a casa, mas as horas eram sempre iguais, os anos eram sempre iguais e o tempo passava, e Alice ficava parada nas horas que só passavam por capricho da mesmice de todos os dias.
Tudo, tempo e espaço se tinham tornado num grande nada que Alice preenchia com o hábito de uma vida de repetições, actos impensados e mecânicos.
Tudo estava por preencher. Tudo estava em branco e foi esse espaço das coisas de sempre que libertaram Alice.
Num espaço que se anulava por estar completamente preenchido, mas que nada significava. Num tempo que passava, mas no qual não havia propósito ou novidade; Aqui, Alice encontrou a oportunidade de dar sentido ao tempo e ao espaço.

Thursday, December 06, 2007

Para ouvir...

The Noisettes


Band Members


Shingai Shoniwa (vocals & bass),

Dan Smith (guitar),

Jamie Morrison (drums)

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Sunday, December 02, 2007



Lembro-me de te ver chegar naquele dia frio, ainda havia orvalho nas flores e lá vinhas tu, descalça, caminhando sobre os campos.



Via-te pelo vidro fosco e não podia acreditar que eras tu.



Vi-te ainda mal se podia distinguir quem eras ou o que eras.



Devagar.Envolta numa névoa branca caminhavas em direcção à velha casa e era eu quem ali estava à tua espera.