Saturday, December 29, 2007

A folha estava em branco.
Não havia nada que lhe apetecesse realmente dizer.
Nada a partilhar com o resto do mundo.
A folha estava em branco e a inspiração devia ter ficado por detrás do muro de celulose que tinha frente e verso, mas que não rimava.
Talvez houvesse dias em que todas as emoções lhe afloravam aos dígitos e ela ultrapassava esse muro e passava para o lado de lá da malha de fibras a que chamava papel. Talvez houvesse dias em que ela era uma malha de fibras a que chamava Ana (ou a que chamavam) e no entanto, essa malha de fibras revelava-se assim, em branco, tal qual folha de papel, por preencher, ainda há espera de transpor um muro de ideias feitas, palavras batidas, sonhos mastigados e jogados fora, pessoas cinzentas que andavam tão perdidas quanto ela pelas entrelinhas de um grande livro.
Talvez houvesse dias em que tinha histórias para contar, dessas, para crianças, de Era uma vez e viveram felizes para sempre, dias em que talvez fosse possível esticar o feliz para sempre em vez de ser feliz num era uma vez. Noutros teria, certamente, contos do fantástico desses que nos deixam a pensar em coisas que nos podiam acontecer, mas que (in)felizmente acontecem sempre aos outros.
Talvez houvesse dias em que procurasse o verdadeiro sentido das palavras em si e, de balança e régua, pesasse e medisse, com a precisão de um alquimista procurando transformar pedra em ouro, a melhor maneira de tentar transformar as suas palavras em poesia.
Talvez houvesse dias em que todos os seus sentidos estivessem despertos e sentissem tudo de todas as maneiras, qual Caeiro, e as coisas simples andassem à solta, apaixonando os olhos dos mais atentos, dos que dão o sentido aos sentidos que se escrevem num pedaço de papel.
Talvez houvesse dias em que sentada em frente duma folha vazia lhe quisesse dar alma, corpo, um lugar e um espaço, uma razão de ser.
Porém, dias havia em que não lhe saía nada. A cabeça era um marulhar de ideias e no papel não havia uma só letra, um só risco ou ponto. Nesses dias não havia nada a dar ao mundo, não havia partilha ou palavra certa e a folha ficava em branco à espera dos dias de talvez.

Friday, December 28, 2007

Para ouvir...

Led Zeppelin

John Bonham - Drums
John Paul Jones - Bass
Jimmy Page - Lead Guitar
Robert Plant - Vocals

Para saberes mais clica aqui

Saturday, December 22, 2007

O Sorriso

Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade

Tuesday, December 18, 2007

Random Thought

»»Desconfio que a estupidez é um dos maiores desafios aos limites das capacidades do Homem.

Monday, December 17, 2007



Elevas-me a um estado de sonhos, assim, sem mais.
Chegas até mim, alcanças-me, tocas-me através de um sorriso, de um olhar, mas sobretudo desses ideais que soltas cá para fora quando ninguém está a ver… na verdade, acho que ninguém quer realmente ver. Às vezes, até eu tenho dificuldades em perceber porque reparei, porque quero ver.
Se consegui ou não, não sei.
Penso que nunca conseguimos realmente ver nada. Quem somos tolda-nos sempre a visão. Ainda assim, há imagens que nos surpreendem e se num instante nos prendem, no momento seguinte, libertam-nos, alargam-nos os horizontes.
É incrível a influência que exercemos no mundo pelo simples facto de sermos qualquer coisa.
A posição que eu assumo em relação ao mundo e aos outros limita indiscutivelmente a minha realidade e ainda assim, não posso afirmar com propriedade em que consiste o real.
Talvez seja mais certo dizer que afecta o meu real e o meu irreal. E se o irreal existe, por contraponto ao que é real, então talvez as barreiras se esbatam e eu esteja apenas a falar de qualquer coisa abstracta que acaba por ser una em si mesma. E se falo de tudo, talvez acabe por falar de nada.
No entanto, se entrar pelo caminho da multiplicidade, da variedade, talvez possa considerar realidades, das quais me aproprio por relação às diferentes situações em que me coloco e pelas diferentes relações que mantenho com diversos sujeitos, partindo do princípio que cada um destes mesmos sujeitos vive uma realidade própria ou múltiplas realidades pela sua condição social.
E que crédito tem uma realidade em detrimento da outra?! O que é que as valida?
O que é socialmente aceitável? O que é comum? O que é palpável? O que é perceptível sensorialmente?
Até que ponto e com que legitimidade uma realidade se sobrepõe a outra? Fundamenta-as a realidade e/ou a essência? E não é o real tido, muitas das vezes, como o que é verdadeiro?
O meu palpite é que não pode haver uma comprovação do real, porque no fundo, o real acaba por ser exactamente o que dele fazemos. Talvez alguns afirmem que o real é, sobretudo o que é um conhecimento de facto comprovado por um número plural.
O real é todas as coisas e coisa nenhuma. O real é, sobretudo, o indivíduo.

Thursday, December 13, 2007

No país das Maravilhas

Até que ponto conhecemos o espaço que nos rodeia?
Se o sol não incidisse sobre tudo e não transportasse até nós as formas das coisas, que percepção teríamos das mesmas?
Quão desligados somos dos detalhes porque assumimos uma realidade como certa?
Todos os dias, Alice, percorria o mesmo caminho, sem surpresas, sem contemplações, a novidade de um dia era esquecida no momento seguinte, sem que, no entanto, representasse de novo uma novidade no dia seguinte.
Todos os dias, Alice, percorria o mesmo caminho, mas não o conhecia de facto, após tantos anos a paisagem tinha-se tornado num grande vazio e assim tinha sido toda a sua vida.
Assim acontecia também com o tempo.
O tempo passava sem que Alice sequer se apercebesse. Claro que muitas vezes estava atrasada para o emprego e sabia que às oito era a hora a que voltava a casa, mas as horas eram sempre iguais, os anos eram sempre iguais e o tempo passava, e Alice ficava parada nas horas que só passavam por capricho da mesmice de todos os dias.
Tudo, tempo e espaço se tinham tornado num grande nada que Alice preenchia com o hábito de uma vida de repetições, actos impensados e mecânicos.
Tudo estava por preencher. Tudo estava em branco e foi esse espaço das coisas de sempre que libertaram Alice.
Num espaço que se anulava por estar completamente preenchido, mas que nada significava. Num tempo que passava, mas no qual não havia propósito ou novidade; Aqui, Alice encontrou a oportunidade de dar sentido ao tempo e ao espaço.

Thursday, December 06, 2007

Para ouvir...

The Noisettes


Band Members


Shingai Shoniwa (vocals & bass),

Dan Smith (guitar),

Jamie Morrison (drums)

Para saberes mais clica aqui e aqui

Sunday, December 02, 2007



Lembro-me de te ver chegar naquele dia frio, ainda havia orvalho nas flores e lá vinhas tu, descalça, caminhando sobre os campos.



Via-te pelo vidro fosco e não podia acreditar que eras tu.



Vi-te ainda mal se podia distinguir quem eras ou o que eras.



Devagar.Envolta numa névoa branca caminhavas em direcção à velha casa e era eu quem ali estava à tua espera.



Wednesday, November 28, 2007



Alcancei-te algum dia?


Toquei-te?
Movi-te de alguma maneira?
Soube respeitar-te, ouvir-te, cuidar-te?
Será que alguma vez li nos teus olhos efectivamente tudo quanto eles me queriam dizer? Ou será que li apenas o que quis ler?
Foram algum dia reflexo dos meus?
Soube o meu abraço manter-te envolvido? Desejado? Protegido?
Soube o meu beijo mostrar-te o quanto te permito? O que te permito em mim?
Poderás algum dia ter uma noção real de tudo quanto pudeste em mim?
Sabes o quanto me alcançaste?
Me tocaste?
Me moveste?
O quanto eu desejei que me soubesses respeitar, ouvir, cuidar?
Será que alguma vez leste nos meus olhos efectivamente tudo quanto eles te queriam dizer?
Ou será que leste simplesmente o que querias ler?
Foram algum dia reflexo nos teus?
Abraça-me, envolve-me, deseja-me, protege-me.
Beija-me e permite-me em ti.
Nunca terei uma noção real do que pude em ti.

Sentada na esplanada do bar, rodando o dedo pelo rebordo do copo de vodka melão, tentava distrair-se com as pessoas que ali estavam. Resolveu acender um cigarro, sempre ajudava. Reparou em como se tinha afastado daquilo tudo e de como era a primeira vez em meses que se dava o prazer de estar assim, sozinha, desfrutando do prazer dum cigarro e de afogar as incertezas numa bebida.


Reparou no homem que estava na mesa da frente. Era bonito. Trocaram olhares e ele sorriu. Há muito tempo que não trocava olhares daqueles com nenhum outro homem. Sentiu-se atrevida, apeteceu-lhe provocar aquele homem do outro lado da mesa, mas não se sentiu capaz.


Aliás, tudo aquilo lhe sabia a falso, como se nada fosse já como tinha sido. A bebida já não servia para afogar coisa nenhuma, o cigarro já não era mais que um mau hábito, o homem do outro lado da mesa era só mais um rosto na multidão de pessoas com quem ela procurava distrair-se.
Levantou-se envergonhada consigo mesma, pensando que era errado querer seduzir o estranho da mesa em frente.


Entrou no carro e seguiu até à porta da casa dele, daquele que conhecia tão bem e que às vezes era só mais um estranho como o de há minutos atrás.


Desligou o motor, apagou as luzes e ficou a olhar a sua janela por um bocadinho, a luz estava acesa. Imaginou-o sentado a ler, como gostava tantas vezes de fazer, mesmo quando estavam os dois juntos. Soube que seria só mais uma boa recordação de entre tantas e sentiu-se cair numa nostalgia que a levava de novo a todas as coisas boas que tinham vivido juntos.


Não sabia mais o porquê de se terem deixado. Não tinham havido palavras feias, gestos cruéis, gritos ou choros. Simplesmente tinham-se deixado. Deixado de se falar, deixado de se ver, deixado de encontrar qualquer coisa um no outro.
Olhou de novo para cima e soltou um suspiro, não sabia quando o tornaria a ver, tinha-o deixado, mas ainda sabia exactamente onde o encontrar.
Deu à chave e enquanto percorria a cidade até casa, chegavam-lhe sempre as mesmas perguntas sem resposta…

Alcancei-te algum dia?

Tuesday, November 27, 2007

Parabéns atrasados!!

On that bleak track

O trilho está no mapa desde dia 17 de Novembro de 2004

Friday, November 02, 2007

Onde estás?

Monday, October 29, 2007

Saturday, October 27, 2007

«Os documentos importantes não são apenas muito extensos e difíceis de delimitar: exercem também um tipo de fascínio subtil e corruptor. Se fitarmos o medonho com demasiada insistência, acabamos por nos sentir insolitamente atraídos pelo medonho. Por vias estranhas, o horror mobiliza-nos a atenção, e concede às nossas capacidades limitadas uma ressonância de artifício. Os últimos poemas de Sylvia Plath são o exemplo clássico desta tentação e desta vertigem. Não tenho a certeza de que haja alguém, por grande que seja o seu escrúpulo, que, despendedno o seu tempo e os recursos da sua imaginação com esses lugares de trevas, possa, ou sequer deva, regressar com a personalidade intacta da viagem.»

George Steiner.

Monday, October 22, 2007

analítica

Sempre tinha tido medo, talvez por saber sofrer de miopia. No fundo era apenas uma desculpa, sabia que ia ser uma observação feita a poucos centímetros do objecto de estudo.
Tinha vindo a adiar aquele momento, da última vez que tinha acontecido tinha ficado destroçada, não havia luz, os olhos fundos, encovados, àgua pelos joelhos, as mãos trémulas, frias, suadas, a boca pequenina, infíma, os gestos e a postura de quem quer estar só.
Tinha medo, não sabia o que poderia encontrar, mas não podia evitar mais aquela consulta.
Antes de o fazer, porém, fechou os olhos e imaginou, imaginou que o que a esperava do outro lado fossem uns olhos abertos, enormes, brilhantes, que falassem como os que já tinha visto, mas apenas de coisas bonitas, de sonhos...
Desejou que os braços estivessem bem abertos, a cabeça bem erguida e o coração cheio.
Quis encontrar uma boca de sorrisos e suspiros encantados. Ao redor, flores, nuvens brancas, raios de sol, queria ver a Natureza vibrante a pulsar em todas as veias, a ser em todas as artérias e por fim imaginou ver os pés descalços, enterrados, sentindo a terra molhada e a erva a acariciá-los ao passar da brisa fresca.
Abandonou-se nesta imagem de desejos por uns momentos, seria possível? Não sabia, mas precisava de o descobrir.
Encheu os pulmões de ar.
Deu um passo em frente.
Destapou o espelho...

Sunday, September 30, 2007

Num fim de semana como este...

Beth Orton - Stolen Car

Monday, September 17, 2007

Um murmúrio

Perdi noção do tempo.
Perdi noção do tempo que passei em pé, em frente da parede húmida, áspera e decadente.
No escuro encarei a parede que nunca vira, mas que sabia estar lá, podia tocar-lhe, sentir-lhe o cheiro a mofo… até na boca.
A princípio julguei que ouvia o silêncio, a princípio só ouvia o silêncio, mais tarde, de tanto fitar a parede comecei por ouvir aquilo que não eram mais que palavras soltas, mais tarde frases e com o passar do tempo as conversas tornavam aquele lugar ensurdecedor, quase que me levaram à loucura quando finalmente entendi que aquelas vozes estavam todas em mim . Não vinham da parede, não existiam ao meu redor, eram ideias que tinham nascido, existiam por eu estar ali, frente à parede nua.
Com o tempo também aprendi a controlar as vozes.
Com o tempo deixei de sentir o meu corpo, primeiro as pernas, depois os braços e por fim todo o corpo, deixei de saber se era eu quem esperava ali, inerte, a queda da parede.
Com o tempo perdi a noção do tempo e no tempo perdido eu já não me sabia encontrar.
Das vozes ensurdecedoras só já existia um murmúrio, dizia baixinho, como que com medo da oponente parede, que ninguém chagaria para a derrubar, que o tempo continuaria a passar e eu ali ficaria, inerte, à espera.
O que era um murmúrio transformou-se numa ladainha e, de novo, quase enlouqueci.
Certa vez, numa dessas vezes em que quase enlouquecia, senti uma picada, no escuro não soube dizer o que tinha sido, se animal ou coisa me tinha atingido, sei que essa picada salvou meu corpo que dormia há muito e gritei de dor.
Com esse grito a parede abriu uma pequena fenda, que eu não vi porque estava escuro mas senti na solidez da parede. Ao aperceber-se deste fenómeno a ladainha cessou.
Tudo ficou calmo por um instante que eu não sei se foi curto ou comprido porque não sabia mais que tempo era. Esse instante foi como o fechar dum ciclo. A voz que outrora me enlouquecera, dizia-me agora que era possível deitar abaixo a parede, a inércia a que me haviam condenado estava prestes a acabar.. talvez se eu gritasse mais um pouco…
A princípio duvidei, como seria possível?
Porém, antes que o ciclo que se iniciasse me levasse de novo a fitar a parede, dei um passo em frente ( quase bati na parede), estendi a mão e senti, de novo, no escuro a fenda, rodeei-a com as mãos, encostei os lábios às mãos e um som tímido, quase inaudível fez frente à imponente parede. Perdi a noção ao tempo que este som levou a tomar forma de grito, o tempo que demorou a embrenhar-se na fenda da parede, o tempo que levou a encontrar um caminho até ao outro lado, a difundir-se, a alastrar-se a todas as fundações da esmagadora parede.
Perdi o tempo ao tempo que gritei, até que por fim, um grito que outrora fora surdo, dividiu a parede em mil bocados e, em tempo nenhum a parede caiu e um luz imensa encheu a divisão.
Foi-me difícil abrir os olhos ao principio, mas pouco tempo depois habituaram-se à claridade e pude finalmente ver do que a parede me separava.
Abri mais os olhos de espanto.
De costas para a parede derrubada fitei, esmagada pela crueldade das evidências, que outra parede me fitava, intacta, forte e áspera como a que derrubara.
Perdi noção do tempo que me permiti a olhá-la, de pé, parada, até sentir o torpor a que o meu corpo se subjugava, até ouvir nada mais que silêncio.
Perdi noção do tempo e deixei-me ficar.
Há sempre mais paredes para derrubar.
Agosto, 2005

Tuesday, August 28, 2007

I wish I was your favourite smile...

Kate Nash - The nicest thing*

*tou num "girlie mood"

Monday, August 27, 2007

No silêncio da terra

No silêncio da terra. Onde ser é estar.
A sombra se inclina.
Habito dentro da grande pedra de água e sol.
Respiro sem saber, respiro a terra.
Um intervalo de suavidade ardente e longa.
Sem adormecer no sono verde.
Afundo-me, sereno,
flor ou folha sobre folha abrindo-se,
respirando-me, flectindo-me
no intervalo aberto. Não sei se principio.
Um rosto se desfaz, um sabor ao fundo
da água ou da terra,
o fogo único consumindo em ar.
Eis o lugar em que o centro se abre
ou a lisa permanência clara,
abandono igual ao puro ombro
em que nada se diz
e no silêncio se une a boca ao espaço.
Pedra harmoniosa
do abrigo simples,
lúcido, unido, silencioso umbigo
do ar.

o teu corpo renasce
à flor da terra.
Tudo principia.
António Ramos Rosa

Sunday, August 12, 2007

Fui apanhar sol..

Musiquinha que vai bem com férias...

Ben Harper e Vanessa da Mata - Boa Sorte/Good Luck

Tuesday, July 17, 2007

dois por quatro



Havia algo de sujo naquelas paredes, naqueles corpos inundados em suor, num aroma quente que revelava um corpo noutro corpo. Da casa ao lado ouvia-se a música. Surgira assim, sem que te desses conta. Foi como o momento. O som tinha atravessado as paredes sujas, insurgindo-se contra a escuridão imensa que tomava conta do quarto e do silêncio.


Estávamos em silêncio.


Levantaste-te para abrir a janela e deixar entrar o som que vinha da casa ao lado. A divisão estava agora iluminada pela luz do candeeiro lá de fora, a noite quente entrava sem pedir licença, como a música. Aproximaste-te de mim que estava abandonada em frente ao espelho vazio e a música aproximou-se contigo.


Permanecemos em silêncio.


Vi-te do espelho e senti a tua respiração quente quando te aproximaste, o frémito do teu corpo. Mais alto, maior, envolvias-me assim só com a imagem, só com aquele olhar imenso que me lançaste pelo espelho. Deixei cair um pouco a cabeça de lado e senti o teu queixo a pousar-me sobre o ombro, as mãos a percorrerem-me os braços até às mãos inertes, o peito cada vez mais perto das minhas costas. Respirava fundo, o decote em v revelava a pele morena e a respiração ofegante, ritmada com o compasso de dois por quatro. deixaste-te ficar a admirar o quadro, fechaste os olhos e inspiraste fundo. Era doce o aroma daquela mulher que tinhas ali junto de ti, tão próximo. Pegaste-me na mão, soou o acordeão, o violino e todos os outros instrumentos que davam corpo ao som que nos entrava pela janela dentro, num movimento rápido colocaste-a sobre o teu pescoço prendendo-me numa posição que nos deixava apenas a alguns centímetros um do outro.

Como se os nossos corpos fossem duas entidades separadas de si mesmos começaram a descrever passos certos, eficazes, como se se namorassem assim naquela dança. Eu rodava nos teus braços, as nossas pernas entrelaçavam-se, cruzavam-se e descruzavam-se quase como se fossem encontros fortuitos entre dois amantes que se desejam arduamente. A música abrandava o seu ritmo e o meu corpo insinuava-se a cada passo, revelando cada curva por debaixo do vestido vermelho de renda negra coberto, o ritmo acelerado fazia com que a respiração me saísse ansiosa pelos lábios vermelhos, o rubor subia-me à face e compunha bem a pele morena, uma madeixa caía-me pela cara e acompanhavam bem o conjunto de músicos da casa ao lado, balançando de cá para lá, lançando no ar um aroma perfumado. Estava maravilhada, sentia-te ali a cada passo, estavas melhor do que nunca, estávamos melhores do que nunca, assim, em silêncio, abandonados aos impulsos primários despertos pela música. O teu corpo vibrava num magnetismo tal que não me permitia errar um único movimento. Atraías-me através dos toques certos, do ímpeto com que puxavas o meu corpo de encontro ao teu e tão depressa o abandonavas e me forçavas a procurar-te.


Eram segredos dançados sobre a luz amarelada que batia no soalho de madeira.


A música tocava e nós sem nunca nos cansarmos continuávamos a dar provas dum entendimento sem antecedentes. Tínhamos despertado quentes, vibrantes, sequiosos um do outro. A música violava-nos a cada nota, num jogo de insinuação e provocação que nos incitava a continuar. A música parou, já tinha parado outras vezes, mas agora a tensão entre nós já tinha chegado ao limite do suportável, já não eram só corpos, éramos nós ali. Eu estava deitada sobre o teu braço, uma perna enlaçada na tua cintura.. deixei cair a cabeça para trás cansada, arrebatada, sentindo pulsar em mim todo o sangue e o coração a bater em todo o corpo. Estavas cansado também, mas continuavas forte, prendendo-me no teu braço, suado daquela conversa, daquele debate entre o desejo e a acção.


Ficámos quietos assim um instante, aquele instante em que a música parou, para logo recomeçar.


Mas nós não, nós mantive-mo-nos parados perdidos algures num tempo até que a tua mão caiu suave mas decidida sobre o meu pescoço, desceu pelo meu peito devagar, escorregando, fazendo notar a sua presença, conquistando-me. Quando finalmente me seguraste pela cintura ergui o meu corpo, coloquei a minha mão na tua nuca e com um movimento desviei um pouco o teu pescoço, que beijei como se ainda dançássemos ao som daquela música. As tuas mãos encontraram o fecho do meu vestido e, à medida que eu ia percorrendo o teu peito de beijos por entre a camisa entreaberta, tiraste-mo, devagar, palmilhando-me, dedilhando-me como se tocasses a guitarra do som que nos envolvia. Passei as minhas mãos pelas tuas pernas até que elas encontrassem o teu peito vibrante, afastei a camisa fazendo com que esta caísse no chão. As nossas bocas faziam-se agora rodeios, provocando-se por mútuo acordo, como se fossem as pernas de há pouco, até que se entrelaçaram e as nossas línguas se cruzaram.


Deixámos os nossos corpos cair sobre o soalho iluminado desculpados por um ou outro acorde mais cheio que nos entrava pela janela.



Havia algo de sujo naquelas paredes, naqueles corpos inundados em suor, um aroma quente que revelava um corpo no outro. Da casa ao lado já não se ouvia música, continuávamos em silêncio e era o sol quem entrava agora inundando o soalho, revelando-nos despidos sobre uma dança que se fez de sombras.

Thursday, July 05, 2007

so long, farewell, auf Wiedersehen, goodbye...

Estou de volta daqui a uns dias...

Friday, June 29, 2007

Era eu a convencer-te que gostas de mim
E tu a convenceres-te que não é bem assim...
Era eu a mostrar-te o meu lado mais puro
E tu a argumentares os teus inevitáveis
Eras tu a dançares em pleno dia
E eu encostado como quem não vê
Eras tu a falar para esconder a saudade
E eu a esconder-me do que não se dizia
Afinal quebramos os dois...
Desviando os olhos por sentir a verdade
Juravas a certeza da mentira
Mas sem queimar demais
Sem querer extinguir o que já se sabia
Eu fugia do toque como do cheiro
Por saber que era o fim da roupa vestida
Que inventara no meio do escuro onde estava
Por ver o desespero na cor que trazias...
Afinal quebramos os dois...
Eras eu a despir-te do era pequeno
E tu a puxares-me para um lado mais perto
Onde se contam historias que nos atam
Ao silencio dos lábios que nos mata...!
Eras tu a ficar por não saberes partir...
E eu a rezar para que desaparecesses...
Era eu a rezar para que ficasses...
E tu a ficares enquanto saías...
Não nos tocamos enquanto saías
Não nos tocamos enquanto saímos
Não nos tocamos e vamos fugindo
Porque quebramos como crianças
Afinal quebramos os dois......
É quase pecado o que se deixa......Quase pecado o que se ignora...

Toranja

Sunday, June 17, 2007

everybody here wants you

Twenty-nine pearls in your kiss, a singing smile,coffee smell and lilac skin, your flame in me.Twenty-nine pearls in your kiss, a singing smile,coffe smell and lilac skin, your flame in me.I'm only here for this moment.I know everybody here wants you.I know everybody here thinks he needs you.I'll be waiting right here just to show youHow our love will blow it all away.Such a thing of wonder in this crowd,I'm a stranger in this town, you're free with me.And our eyes locked in downcast love, I sit here proud,Even now you're undressed in your dreams with me.I'm only here for this moment.I know everybody here wants you.I know everybody here thinks he needs you.I'll be waiting right here just to show youHow our love will blow it all away.I know the tears we cried have dried on yesterdayThe sea of fools has parted for usThere's nothing in our way, my loveDon't you see, don't you see?Don't you see, don't you see?You're just the torch to put the flameto all our guilt and shame,And I'll rise like an ember in your name.I know, I know,I know everybody here wants you.I know everybody here thinks he needs you.I'll be waiting right here just to show youLet me show that love can rise, rise just likeembers.(While "I know everybody here wants you." Repeats)Love can taste like the wine of the ages, baby.And I know they all look so good from a distance,But I tell you I'm the one.I know everybody here will thinks he needs you,thinks he needs youAnd I'll be waiting right here just to show you.Twenty-nine pearls in your kiss, a singing smile,coffee smell and lilac skin, your flame in me.Twenty-nine pearls in your kiss, a singing smile,coffe smell and lilac skin, your flame in me.I'm only here for this moment.I know everybody here wants you.I know everybody here thinks he needs you.I'll be waiting right here just to show youHow our love will blow it all away.Such a thing of wonder in this crowd,I'm a stranger in this town, you're free with me.And our eyes locked in downcast love, I sit here proud,Even now you're undressed in your dreams with me.I'm only here for this moment.I know everybody here wants you.I know everybody here thinks he needs you.I'll be waiting right here just to show youHow our love will blow it all away.I know the tears we cried have dried on yesterdayThe sea of fools has parted for usThere's nothing in our way, my loveDon't you see, don't you see?Don't you see, don't you see?You're just the torch to put the flameto all our guilt and shame,And I'll rise like an ember in your name.I know, I know,I know everybody here wants you.I know everybody here thinks he needs you.I'll be waiting right here just to show youLet me show that love can rise, rise just likeembers.(While "I know everybody here wants you.")Love can taste like the wine of the ages, baby.And I know they all look so good from a distance,But I tell you I'm the one.I know everybody here will thinks he needs you,thinks he needs youAnd I'll be waiting right here just to show you.

Jeff Buckley

Thursday, June 14, 2007

Caixinha de música

impregno-me em ti como um perfume
como quem veste a pele de odores ou a alma de
cetins
quero que me enlaces ou me enfaixes de muitos
laços
abraços fitas ou fios transparentes
em celofane brilhando uma prenda
uma menina te traz vestida de lumes
incandescendo incandescentete
quer embrulhada em véus de seda e brocado
encantada a serpente a flauta o mago
senhor toca
e quando me toca
o corpo eu abro
caixinha de música
dentro
com bailarina que dança
(Ana Mafalda Leite)

Tuesday, June 12, 2007

sabes...


Não sei que coisa é esta que tem a minha boca que não se cansa de ti.
Que vontades são estas as dos meu lábios que se atiram gulosos para os teus.
Não sei que coisa é esta que tem a minha boca que se ri do teu sorriso, que enterra a língua no teu umbigo e se lambuza na tua orelha.
Que vontades são estas as dos meus lábios de fazerem um reconhecimento do teu corpo em beijos, de se fazerem carmim para a tua pele morena de se entreabrirem para fazerem os teus de reféns.

Saturday, June 09, 2007

- vai subir?



se perguntarem digam que o meu ascensor é de pedra. que só sobe quando eu subo e só desce quando eu desço. o meu ascensor é de pedra e não tem botões. e não, não sou cá de chamar elevador à coisa que eu não me quero elevar. o meu ascensor não tem números, nem portas automáticas, nem daquelas antigas de fole em ferro.o meu ascensor não funciona a electricidade, alimenta-se de outro tipo de energia.o meu ascensor é de pedra e só eu sei o sacrifício que é para que ele me leve a algum lado. se perguntarem digam que o meu ascensor é de pedra.




Friday, June 08, 2007

aurora menina 2º




(...)

porém, antes de me enfiar na tina de água quente que me esperava fui até à cozinha certificar-me de que o assado que tinha preparado antes continuava a apurar ao calor do fogão a lenha. o doce ficava para depois.

despi-me, soltei os cabelos e com a solenidade de um baptismo entrei na água, mergulhei-me nela procurando a alegada purificação.
não sei quanto tempo me deixei ficar mas, quando saí tinha as pontas dos dedos engelhadas e a água estava quase fria.

sequei-me no toalhão de banho e vesti-me devagar, sem pressas, sem marcas, sem vincos, vesti-me para me despires, com calma, com adivinhas e no final com as tuas mãos fortes.

o vestido nunca o tinhas visto. fi-lo para esta ocasião.

espero que gostes.

o corpete é branco, muito simples, aconchega-me o peito confortavelmente, não o queria muito apertado. coloquei os atilhos atrás, enlaçados por uma fita de cetim branco, na frente não tem enfeites, é direito.

na cintura coloquei uma faixa alfazema, muito clarinha. a saia é comprida com um bocadinho de roda, branca como o corpete.
vou usar o velho xaile, sabes?! aquele que nos serviu de encosto quando íamos passear no campo e nos estendíamos na erva alta, quando nos abandonava-mos a inventar novas formas para as nuvens e novas cores para o céu.
funciona como um contador de histórias, não quis que a roupa nova nunca tivesse ouvido falar de nós, podia estranhar-te.

sequei o cabelo. está maior desde a última vez que mo viste, mas continuo sem conseguir fazer nada dele, a menos que seja a ferros, literalmente.
hoje vou deixá-lo como ele quiser estar, mesmo que seja em desalinho, vou só domá-lo um pouquinho para o não deixar fugir para os olhos.

calcei os sapatos de domingo.
têm pouquinho salto, podes continuar a meter-me debaixo do braço se quiseres, embora eu prefira que me tenhas nos braços.

Thursday, June 07, 2007

... mesmo num abraço, às vezes, continuas-me a parecer inalcançável...*
*ou como me escapou um suspiro.

aurora menina 1º




abri as janelas do velho casario de pedra de par em par, a madeira já velha onde encaixa o vidro fosco custou a ceder mas, ao aperceber-se do propósito que a convidava a deixar entrar o ar puro que vinha lá de fora, deixou-se ir.

da varanda, com as mãos sobre a armação de ferro que o tempo e a chuva enferrujaram lembro-me de ter visto a planicie, mais ao longe o monte e nos seu cimo o moinho que já só nos lembra um tempo em que o pão não podia faltar. àquela hora o sol iluminava bem os campos e as poucas árvores que guardavam o terreno olhavam ao longe umas para as outras.

tinha escolhido um bom dia. entrei e abri a velha arca que estava na sala. escolhi os melhores panos, a melhor toalha e estendia-a sobre a mesa. a toalha era velha, mas tinha servido poucas vezes, só em ocasiões muito especiais.

a criada entrou com as flores para as jarras. tulipas. brancas. vermelhas. muitas.

os meus passos agigantavam-se mas, porque ao andar, marcavam um compasso entre o bater do salto e o eco que fazia ao tocar o soalho de madeira amplificado pelas paredes antigas e o tecto elevado.

deixei o nosso quarto para último. precisava de reunir forças, queria demorar-me nele.

comecei por lavar as janelas, sacodir as cortinas e amarrá-las para deixar entrar a luz pelas janelas agora abertas.

escolhi bem o dia, o nosso quarto dá de frente para a encosta, lá ao longe a nora e o velho montado.

fiz a cama de lavado, com os lençóis de branco linho e por cima a colcha com as rosetas, branca, a primeira que fiz, aquela de que mais gostas.

ajeitei os meus vestidos que dentro do armário namoravam os teus fatos.

em cima do tocadouro deixei apenas a minha escova e o gancho de prata com que costumava prender os cabelos.

na cómoda estendi o pano que a tua mãe nos deu e troquei as velas aos castiçais.

lavei o espelho da bacia e coloquei água nova no jarro, sei como gostas de te refrescar antes de dormir.

do salão roubei cinco tulipas brancas. três para mim, duas para ti. ficaram bonitas na mesa de cabeceira.

por fim, ajoelhei-me, lavei e encerei o chão, passei o pano para dar lustro.

no compartimento do lado a criada já tinha preparado o banho, o sol ia alto e já devias estar quase a chegar...

(...)




Tuesday, June 05, 2007

mayday mayday mayday

Hoje despenhou-se um mosquito no meu olhar.

Friday, May 25, 2007

roads




..e se o caminho é em frente e avançamos, mas com pedras no sapato o andar vai se debilitando, cada dia avançamos um pouco menos, cada dia a pedra incomoda mais um bocadinho.
avançar ou parar?
tirar a pedra do sapato e caminhar cada vez mais, mais longe e o caminho a fazer-se cada vez maior, mais amplo, mais prazeroso também, já sem aquela moínha duma pedra num sapato.
mas parar vai atrasar-nos no caminho e a pedra vai-nos lembrando as dificuldades porque passámos. os pés são giros, lembram-se mais do caminho quando estão calejados, apertados entre o sapato e a pedra.
eu não sei, mas cá para mim vou caminhar descalça, as pedras que encontrar no caminho deixo-as lá, se me magoarem os pés, sigo adiante, não será uma moínha e a dor passa.
assim, sem sapatos, com a planta dos pés a lançar raízes à terra sem se fixar porque o caminho continua lá à frente.

Sunday, May 20, 2007

(Clica na imagem para aumentar)

CICLO DE CINEMA
OS CLÁSSICOS DE ONTEM E DE HOJE
21 a 25 de Maio
na
FLUL

APARECE!!!

Friday, May 18, 2007


beija-me.

beija-me agora que o mundo parou, que voltámos ao reino que juntos criámos um dia, por acaso, quase sem querer, sem ver o que nos esperava lá à frente.

diz-me o que encontraste, o que é que os teus olhos viram e o vento te contou, assim, baixinho, como uma brisa para ouvidos, feita expressamente para levar as palavras doces e calmas.

foi só um instante?! foi um brilho?! foi um riso!? quais foram as coisas que te conquistaram e te fizeram querer o mundo?! voar alto?! ser.

beija-me.

beija-me agora que são só cores as coisas que nos envolvem, que há o silêncio e somos só nós num abraço.

desaparecemos no tempo, no espaço, no lugar onde as coisas são só porque sim, porque alguém lhes disse que assim é que tinha de ser, porque alguém nomeou as coisas e elas se deixaram ficar assim... mas há ainda tanto por inventar.

desaparecemos e aparecemos melhor em nós, dentro de nós, para nós e não sei, mas creio que seja essa a magia que dá vida a esta ausência de sentido de sentir o mundo como ele é só porque sim, e se expande e cria a presença de sentir todas as coisas de cor e luz e brilho e riso e festa que se dá quando nos visitamos.

visita-me.

visita-me onde as ideias se criam, onde as palavras são só o que significam, onde elas se alinham e se multiplicam em sentidos. visita-me lá, onde a imaginação anda a correr à solta e a voar bem alto sempre que lhe apetece, onde não precisa de esperar pela razão.

visita-me também na razão, é engraçada, juro, faz lembrar uma fábrica, de rodas dentadas e engrenagens bem oleadas, uma linha de montagem em que a matéria prima dos sonhos que sou eu, se processam, se misturam, e acabam por sair do outro lado, produto já feito, uma desculpa engraçada para mostrar ao mundo que só se interessa por produtos acabados.

anda, tira os sapatos, põe-te confortável e descobre onde os meus vôos me levam, que as penas das minhas asas te façam cócegas e te rias sempre muito, alto, por gosto, porque, sabes, eu gosto de encher a minha casa de risos, mesmo que não sejam os meus, basta-me que sejam sinceros.

sabe-me. mas sem ser de cor. gosto do ar de surpresa e da euforia de descobrir coisas novas, de ser surpreendido... positivamente. mas atenção, espera de mim tudo... não sou diferente dos outros.

guarda-me. por agora. agora que o mundo parou e que estamos aqui só nós na casa um do outro. e beija-me, porque não sei quando te torno a visitar.




Friday, May 04, 2007

Ordinary Love (This is no...)

When you came my way you brightened every day with your sweet smile

I keep trying

Wednesday, April 25, 2007

Sunday, April 15, 2007

Thursday, April 05, 2007

para ouvir...

Hate this & I'll Love you...



Muse

A banda
Matthew Bellamy - voz, guitarra, piano
Chris Wolstenhome - baixo e teclas
Dominic Howard - bateria
Discografia
Showbiz - 1999
Origin of Symmetry - 2001
Absolution - 2003
Black Holes And Revelations - 2006

Thursday, March 29, 2007

a noite passada

a noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

a noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

a noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"
Sérgio Godinho

Sunday, March 25, 2007

já dizia Brecht...

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

como em outro dia qualquer




Hoje pego no teu sorriso com os meus sonhos, pego-te p’la mão e escancaro as portas do céu para mergulharmos em nuvens, constelações e voar... para longe, para sentir um formigueiro nos pés por cada astro que pisar-mos.
Hoje vou saltar no mar, revolver as areias do fundo do mar, mas só um bocadinho para não assustar os peixes, e encontrar a Atlântida dos sentidos que ficou, certo dia, perdida algures entre o leito da espuma das ondas que nos embalavam.
Vou correr de braços abertos junto ao rio e atirar-me do alto duma cascata de beijos e abraços para desaguar em pós de magia e sonho.
Hoje vou esperar que durmas para suster a minha respiração e ficar num momento tão curto e tão l o n g o de pura felicidade, daqueles que enchem o peito da gente e depois se expandem até não cabermos mais em nós e termos de nos permitir inundar tudo em volta.
Vou cantar ao abrir de todas as janelas e deixar a luz do sol dançar por entre as tábuas do chão até se pôr de cansaço no horizonte.
Vou rebolar colina abaixo, movida a risos, aterrar por entre flores e frutos dos teus lábios sumarentos, trincar cabelos e desejos.
Hoje vou te tirar para dançar, abraçar-te por entre dós, rés, mis, fás, sóis, cometas e pós de estrela e quando as luzes do salão baixarem e ficarmos só nós a rodopiar, vais ver que afinal já dançávamos um no outro ao som de tudo o que nos dissemos e ao ritmo de todos os carinhos.
Hoje (que momento tão vago)… Hoje, vou querer ser maior que eu, chegar mais longe, desprender-me de tudo a quanto me agarro, vou saber esperar, respeitar a essência de cada coisa, demorar-me em mim… percorrer-me e depois adormecer cansada apenas de sorrir e andar por aí a sonhar-me.
Dorme tu também.

Saturday, March 10, 2007

Monday, March 05, 2007

Hoje acordei com isto...

Our Hearts Will Beat As One - David Fonseca

Sunday, March 04, 2007

quando a noite cai...

Ao João que me cedeu a primeira frase do texto..


Ele percebe-me e eu cedo-lhe sempre que me deito. Nem sei porque é assim, mas é, sempre foi. Ele embala-me e leva-me para lugares que não recordo mas que sei serem só meus e da minha gente, daquela que mantenho viva ao manter-me vivo. Fecho os olhos e ele leva-me assim, por minha vontade, sem resistência, sem que tenha de me envolver à força e eu sei que estou seguro, que ele só me abandonará quando o sol despontar, quando não houver mais sonhos para sonhar, nem refúgios a visitar, nem pedaços de mim a perscrutar, ele conduz-me, leva-me para longe em mim. O sono…

Tuesday, February 27, 2007

uma parte...


(...)

Deixa-me percorrer descalça cada fio do teu cabelo, mergulhar no teu sorriso e adormecer no teu queixo. Deixa-me seguir para sul, estremecendo com o bater do teu peito e depois fazer dele música enquanto me canto.

Thursday, February 15, 2007

Para ouvir...

It's never over...







Jeff Buckley

(17 de Novembro,1966 - 29 de Maio,1997)

discografia:

1993 - Live at Sin-é

1994 - Grace

1995 - Live from Bataclan

1998 - Sketches for My Sweetheart the Drunk

2000 - Mistery White Boy

2001 - Live a L'Olympia

2001 - Songs To No One 1991 - 1992

2002 - The Grace EPs

2003 - Live at Sin-é (Legacy edition)

2004 - Grace (Legacy Edition)

Aqui podem ouvir toda a obra de Jeff Buckley gratuitamente, vale a pena.

Página Oficial

Sunday, February 11, 2007

Um raio de luz ardente

És um raio de luz
Na minha vida
Um pequeno e bom raio de luz
Na minha vida
E essa luz clara e branca que tens,é que ilumina
Todos os passos que me levam até ti
És mais quente que o sol
Quando amanhece
Brilhas mais do que as estrelas do céu
Quando anoitece
E esse raio de luz que tu és
Nunca se esquece
De iluminar cada momento para mim
Abraçar-te por fim
Por muitos anos
Devolvendo à realidade o que sonhámos
Desejava dedicar-me assim
Por muitos anos
E nunca mais renunciar a este amor
Deixa-me ser como tu
Um raio de luz ardente
Deixa-me ser como tu és
Luz e Amor somente
Eu queria ser como tu
E abraçar-te contente
Numa só esfera de luz
Eternamente presente
Pedro Ayres Magalhães

Wednesday, February 07, 2007

Para ouvir

A iniciar um género de uma rubrica...








Silverchair

Daniel Johns- voz e guitarra
Chris Joannou - baixo
Ben Gillies - bateria


Discografia:

1995 - Frogstomp
1997 - Freak Show
1999 - Neon Ballroom
2002 - Diorama

2003 - Live From Faraway Stables

2000 - The Best Of Vol.1
2002 - Rarities 1994-1999

Apontamento

Quimera sensível trazias no brilho da tua figura o universo do som e do sentido, no paladar da sumária aparição etérea do ser no expoente máximo de ser-se como tu és quando és todo sorriso e ícor a pulsar-te nas veias e a suster-te a alma.


Dezembro 2006.