Estávamos os dois na esplanada à beira mar. Estávamos os dois em silêncio.Tu lias, eu desenhava, lembraste?
Olhei o mar, ao fundo via-se um pequeno barco. O sol ia alto e então os meus olhos pousaram-se em ti.
Estavas lindo. Àquela hora o sol batia-te em cheio no lado direito da cara, tinhas o ar de quem estava longe, alheio a tudo num mundo só teu. Perguntei-me se faria parte desse mundo, nesse momento ergueste os olhos do papel e sorriste-me, soube que sim e sorri-te de volta, voltaste à tua leitura e eu voltei ao meu desenho.
Naquele dia estávamos os dois à beira mar. Eu lia enquanto ela desenhava. Estava linda. A brisa do mar batia-lhe nos cabelos revelando-lhe a cara.Gostava de sentir que o seu silêncio não me incomodava, de facto, era reconfortante.
Por momentos senti os seus olhos enormes, curiosos e brilhantes a espreitar-me de cima do livro, irresistivelmente dei comigo a contemplá-los, estava feliz por ela estar comigo. Sorri.
Cheguei ao final do desenho, continuavas a ler. Admirei-te por uns momentos e facilmente dei comigo a pensar em nós. Quando despertei estavas a olhar p’ra mim. Então disse-te:
- Somos tão diferentes, tu e eu.
Continuaste calado por uns momentos.
- Porque dizes isso?
- Tu és tão melhor que eu.
- Não sou melhor que ninguém.
Ela calou-se. Fiquei à espera duma resposta, qualquer coisa que me fizesse entender.
-Somos diferentes.
- Explica.
- Não sei.
- Tenta…
Não sabia como explicá-lo, não de maneira a que ele entendesse. Éramos bastante diferentes. Acima de tudo amava-o por essa diferença, ele tinha o dom de me fazer ver o mundo ao contrário.
- Vês as coisas com outros olhos.
Acabou por dizer. No fundo eu sabia o que ela queria dizer. Eu sabia que tinha havido um momento no início em que as coisas eram realmente diferentes, não por eu ser melhor mas porque ela era apenas uma força em potência.
Lembro-me tão bem do dia em que a conheci. Estava sentada na esplanada a ler um livro, quase como estávamos agora. Em cima da mesa estava um sumo de laranja. Eu tinha-me sentado na mesa oposta a tua, do outro lado da esplanada que àquela hora da manhã estava deserta. Pedi um chá e imaginei o porquê de estares ali, o que estarias a ler, o porquê de te achar irresistível apenas porque lias um livro e bebias um sumo de laranja, apenas porque os teus olhos pareciam brilhar mais e o sorriso com que brindavas o livro parecer iluminar tudo em redor. Eras tão inocente. Mais tarde ou mais cedo deixarias de encontrar prazer num livro, num sumo de laranja ou numa manhã na esplanada. O chá chegou.
Estava a olhar em volta quando levantaste os olhos do livro e olhaste para mim. Sorriste-me. O sorriso mais lindo e mais espontâneo que alguém alguma vez me havia dado. Fiquei sem saber muito bem como reagir, acabei por te dar um sorriso tímido.
Acabaste o teu sumo sem que os nossos olhos se tornassem a encontrar, eu estava escrever, lembro-me que nessa altura escrevia sobre as coisas da vida como elas são, sem sofismas, sem sonhos, sem floreados, escrevia a força bruta do mundo e ainda assim encontrava-lhe beleza.
Escrevia absorto do resto, o teu sorriso era já só uma remota lembrança perdida entre os primeiros parágrafos.
Não te vi levantar, nem pagar o sumo, nem marcares o livro com a dobra do canto da página, nem pegares nas tuas coisas, nem mesmo vi que vinhas ter comigo.
Sentas-te mesmo à minha frente. Olhei surpreendido para ti, Tu estavas a olhar-me com um sorriso e então exclamaste: “ Olá! Chamo-me Maria.”, não estava nada à espera daquilo, “ Oi… João.” “ Estava ali sentada e não consegui deixar de reparar em ti aí a escrever como se mais nada existisse e o mundo fosse acabar amanhã.” “ Nunca se sabe.” sorri-lhe, ela olhou curiosa para os meus papéis “ É sobre o quê?! És escritor? “, se fosse outra pessoa provavelmente ter-me-ia sentido incomodado mas ela serenava-me, divertia-me, era espontânea sem se preocupar muito com aquilo que eu poderia pensar dela.
“ Não sou escritor nenhum” sorri divertido “ Escrevo para mim, sobre nós… é complicado…” “ Hum… Parece interessante, seja o que for que estejas a escrever deve ser sério, estás cinzento. “ e fez uma cara esquisita que me deu vontade de rir “ Não importa…” e fechei o caderno dando por encerrado aquele texto, “ Reparei que estavas a ler, que livro é?” “Ana Karenina, do Tolstoi, já leste?” “Não, ainda não, mas já me falaram nele.” “ Estou a gostar, há uma parte que diz: ‘No tempo infinito, na infinitude da matéria, no espaço infinito forma-se uma bolha, que se mantém por algum tempo, depois rebenta. Essa bolha sou eu!’. ” depois olhou para o relógio e disse “ Tenho de ir, gostei de te conhecer, vemo-nos por aí.” deu-me um beijo e partiu sem me dar tempo sequer para dizer fosse o que fosse.
Encontrámo-nos todos os dias dessa semana.
Olhei o mar, ao fundo via-se um pequeno barco. O sol ia alto e então os meus olhos pousaram-se em ti.
Estavas lindo. Àquela hora o sol batia-te em cheio no lado direito da cara, tinhas o ar de quem estava longe, alheio a tudo num mundo só teu. Perguntei-me se faria parte desse mundo, nesse momento ergueste os olhos do papel e sorriste-me, soube que sim e sorri-te de volta, voltaste à tua leitura e eu voltei ao meu desenho.
Naquele dia estávamos os dois à beira mar. Eu lia enquanto ela desenhava. Estava linda. A brisa do mar batia-lhe nos cabelos revelando-lhe a cara.Gostava de sentir que o seu silêncio não me incomodava, de facto, era reconfortante.
Por momentos senti os seus olhos enormes, curiosos e brilhantes a espreitar-me de cima do livro, irresistivelmente dei comigo a contemplá-los, estava feliz por ela estar comigo. Sorri.
Cheguei ao final do desenho, continuavas a ler. Admirei-te por uns momentos e facilmente dei comigo a pensar em nós. Quando despertei estavas a olhar p’ra mim. Então disse-te:
- Somos tão diferentes, tu e eu.
Continuaste calado por uns momentos.
- Porque dizes isso?
- Tu és tão melhor que eu.
- Não sou melhor que ninguém.
Ela calou-se. Fiquei à espera duma resposta, qualquer coisa que me fizesse entender.
-Somos diferentes.
- Explica.
- Não sei.
- Tenta…
Não sabia como explicá-lo, não de maneira a que ele entendesse. Éramos bastante diferentes. Acima de tudo amava-o por essa diferença, ele tinha o dom de me fazer ver o mundo ao contrário.
- Vês as coisas com outros olhos.
Acabou por dizer. No fundo eu sabia o que ela queria dizer. Eu sabia que tinha havido um momento no início em que as coisas eram realmente diferentes, não por eu ser melhor mas porque ela era apenas uma força em potência.
Lembro-me tão bem do dia em que a conheci. Estava sentada na esplanada a ler um livro, quase como estávamos agora. Em cima da mesa estava um sumo de laranja. Eu tinha-me sentado na mesa oposta a tua, do outro lado da esplanada que àquela hora da manhã estava deserta. Pedi um chá e imaginei o porquê de estares ali, o que estarias a ler, o porquê de te achar irresistível apenas porque lias um livro e bebias um sumo de laranja, apenas porque os teus olhos pareciam brilhar mais e o sorriso com que brindavas o livro parecer iluminar tudo em redor. Eras tão inocente. Mais tarde ou mais cedo deixarias de encontrar prazer num livro, num sumo de laranja ou numa manhã na esplanada. O chá chegou.
Estava a olhar em volta quando levantaste os olhos do livro e olhaste para mim. Sorriste-me. O sorriso mais lindo e mais espontâneo que alguém alguma vez me havia dado. Fiquei sem saber muito bem como reagir, acabei por te dar um sorriso tímido.
Acabaste o teu sumo sem que os nossos olhos se tornassem a encontrar, eu estava escrever, lembro-me que nessa altura escrevia sobre as coisas da vida como elas são, sem sofismas, sem sonhos, sem floreados, escrevia a força bruta do mundo e ainda assim encontrava-lhe beleza.
Escrevia absorto do resto, o teu sorriso era já só uma remota lembrança perdida entre os primeiros parágrafos.
Não te vi levantar, nem pagar o sumo, nem marcares o livro com a dobra do canto da página, nem pegares nas tuas coisas, nem mesmo vi que vinhas ter comigo.
Sentas-te mesmo à minha frente. Olhei surpreendido para ti, Tu estavas a olhar-me com um sorriso e então exclamaste: “ Olá! Chamo-me Maria.”, não estava nada à espera daquilo, “ Oi… João.” “ Estava ali sentada e não consegui deixar de reparar em ti aí a escrever como se mais nada existisse e o mundo fosse acabar amanhã.” “ Nunca se sabe.” sorri-lhe, ela olhou curiosa para os meus papéis “ É sobre o quê?! És escritor? “, se fosse outra pessoa provavelmente ter-me-ia sentido incomodado mas ela serenava-me, divertia-me, era espontânea sem se preocupar muito com aquilo que eu poderia pensar dela.
“ Não sou escritor nenhum” sorri divertido “ Escrevo para mim, sobre nós… é complicado…” “ Hum… Parece interessante, seja o que for que estejas a escrever deve ser sério, estás cinzento. “ e fez uma cara esquisita que me deu vontade de rir “ Não importa…” e fechei o caderno dando por encerrado aquele texto, “ Reparei que estavas a ler, que livro é?” “Ana Karenina, do Tolstoi, já leste?” “Não, ainda não, mas já me falaram nele.” “ Estou a gostar, há uma parte que diz: ‘No tempo infinito, na infinitude da matéria, no espaço infinito forma-se uma bolha, que se mantém por algum tempo, depois rebenta. Essa bolha sou eu!’. ” depois olhou para o relógio e disse “ Tenho de ir, gostei de te conhecer, vemo-nos por aí.” deu-me um beijo e partiu sem me dar tempo sequer para dizer fosse o que fosse.
Encontrámo-nos todos os dias dessa semana.
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2 comments:
Criada.
=) obrigada.
ñ sou outra =P * aparece.
Gostei muito...é bom poder parar num blog e ler bem...ler coisas que me agradam, que me fazem pensar..q me fazem sorrir :D Agora vou meter a minha colherada...acho que todos gostávamos de um dia ter uma destas manhãs na esplanada e, no diferente, encontrarmo-nos! WOnderful darling!!! :D
Fica bem**
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