
Disseram-me um dia que o homem não pode ter mais do que aquilo que lhe é dado. Que acima da vontade dum homem, existe a vontade de um mundo, gerido por outros homens, homens a quem os sonhos pouco interessam e que continuam sempre a querer mais, mais poder, mais força.Esses homens são poucos, mas fazem a diferença, num mundo em que ninguém ergue a cabeça para lutar seja pelo que for, por um mundo em que nos amarram às leis de ninguém, às ideias fechadas de quem não sonha, de quem quer controlar o homem, os homens.
Essa voz que me falava vinha de cima, era uma voz cava e funda, autoritária, ouvi-a por muitos anos, acreditei-a.
Certa vez em que seguia esquecida do sonho, nesses caminhos de ninguém, ouvi outra voz. Esta voz dizia-me que olhasse para cima. A medo olhei. Descobri a lua. Era linda. Estava cheia, redonda, iluminava um céu negro e do qual eu não via o fim.Essa voz disse-me que podia ser minha. Disse-me também que a voz que eu outrora ouvira mentia, que o homem é feito da mesma matéria com que se entrelaçam os sonhos e que não há nenhum homem que seja o único detentor de razão. Disse-me que podia lutar para conseguir a lua, que podia querer mais do que aquilo que me era dado, que me era imposto, eu podia ser mais do que aquilo que de mim faziam, eu podia ser livre.
Essa voz não vinha de cima.
Essa voz não vinha de baixo.
Essa voz vinha dum lugar distante, dum lugar em que todos somos iguais, dum lugar em que os sonhos vivem submersos mas têm espaço para viver.
Essa voz era igual à minha, mas era livre porque sonhava, era livre porque me ensinava coisas novas, me abria mundos e ideias, era livre porque acreditava além do que aquilo que lhe era dado.
Então compreendi, que todas as noites a lua estava no céu, que eu podia sempre estender a mão, não a alcançar, mas que era de meu direito quere-la, desejá-la e fazê-la minha, nem que fosse no instante em que estendia o braço e tentava apanhá-la.A lua nem sempre se via, havia noites em que desaparecia, outros em que crescia, noutros diminuia, noutros ainda aparecia cheia a lembrar-me do sonho, mas eu sabia-a sempre lá a alimentar-me... o sonho.
O dia nascia, eu não tinha conseguido fazer a lua minha, mas eu sabia, que outra noite havia de vir, que a cada dia que passava a luta era maior, e derepente deixei de ouvir a voz que vinha de cima, deixei de fechar os olhos quando o sol brilhava, esperava a noite, a lua, outro dia, uma nova Utopia.

1 comment:
Tenho cá umas hesitações em relação à lua sabes. Bem sei que se mascara fascinante, naquela beleza pálida e distante. Que nos encanta hipnoticamente, mas falta-lhe conteúdo... Não tem calor, não tem luz própria. Tem pó e rochas, e sem sol é demasiado fria para um ser humano. Mas é verdade, é encantadora "never the less", mas cuidado com as armadilhas em que te metes... viver à espera da noite, viver à espera que a escuridão chegue, é um assunto delicado.
Mesmo assim, é um texto muito bonito e cheio de esperança.
Parabéns.
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