abri as janelas do velho casario de pedra de par em par, a madeira já velha onde encaixa o vidro fosco custou a ceder mas, ao aperceber-se do propósito que a convidava a deixar entrar o ar puro que vinha lá de fora, deixou-se ir.
da varanda, com as mãos sobre a armação de ferro que o tempo e a chuva enferrujaram lembro-me de ter visto a planicie, mais ao longe o monte e nos seu cimo o moinho que já só nos lembra um tempo em que o pão não podia faltar. àquela hora o sol iluminava bem os campos e as poucas árvores que guardavam o terreno olhavam ao longe umas para as outras.
tinha escolhido um bom dia. entrei e abri a velha arca que estava na sala. escolhi os melhores panos, a melhor toalha e estendia-a sobre a mesa. a toalha era velha, mas tinha servido poucas vezes, só em ocasiões muito especiais.
a criada entrou com as flores para as jarras. tulipas. brancas. vermelhas. muitas.
os meus passos agigantavam-se mas, porque ao andar, marcavam um compasso entre o bater do salto e o eco que fazia ao tocar o soalho de madeira amplificado pelas paredes antigas e o tecto elevado.
deixei o nosso quarto para último. precisava de reunir forças, queria demorar-me nele.
comecei por lavar as janelas, sacodir as cortinas e amarrá-las para deixar entrar a luz pelas janelas agora abertas.

escolhi bem o dia, o nosso quarto dá de frente para a encosta, lá ao longe a nora e o velho montado.
fiz a cama de lavado, com os lençóis de branco linho e por cima a colcha com as rosetas, branca, a primeira que fiz, aquela de que mais gostas.
ajeitei os meus vestidos que dentro do armário namoravam os teus fatos.
em cima do tocadouro deixei apenas a minha escova e o gancho de prata com que costumava prender os cabelos.
na cómoda estendi o pano que a tua mãe nos deu e troquei as velas aos castiçais.
lavei o espelho da bacia e coloquei água nova no jarro, sei como gostas de te refrescar antes de dormir.
do salão roubei cinco tulipas brancas. três para mim, duas para ti. ficaram bonitas na mesa de cabeceira.
por fim, ajoelhei-me, lavei e encerei o chão, passei o pano para dar lustro.
no compartimento do lado a criada já tinha preparado o banho, o sol ia alto e já devias estar quase a chegar...
(...)

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