Perdi noção do tempo.
Perdi noção do tempo que passei em pé, em frente da parede húmida, áspera e decadente.
No escuro encarei a parede que nunca vira, mas que sabia estar lá, podia tocar-lhe, sentir-lhe o cheiro a mofo… até na boca.
A princípio julguei que ouvia o silêncio, a princípio só ouvia o silêncio, mais tarde, de tanto fitar a parede comecei por ouvir aquilo que não eram mais que palavras soltas, mais tarde frases e com o passar do tempo as conversas tornavam aquele lugar ensurdecedor, quase que me levaram à loucura quando finalmente entendi que aquelas vozes estavam todas em mim . Não vinham da parede, não existiam ao meu redor, eram ideias que tinham nascido, existiam por eu estar ali, frente à parede nua.
Com o tempo também aprendi a controlar as vozes.
Com o tempo deixei de sentir o meu corpo, primeiro as pernas, depois os braços e por fim todo o corpo, deixei de saber se era eu quem esperava ali, inerte, a queda da parede.
Com o tempo perdi a noção do tempo e no tempo perdido eu já não me sabia encontrar.
Das vozes ensurdecedoras só já existia um murmúrio, dizia baixinho, como que com medo da oponente parede, que ninguém chagaria para a derrubar, que o tempo continuaria a passar e eu ali ficaria, inerte, à espera.
O que era um murmúrio transformou-se numa ladainha e, de novo, quase enlouqueci.
Certa vez, numa dessas vezes em que quase enlouquecia, senti uma picada, no escuro não soube dizer o que tinha sido, se animal ou coisa me tinha atingido, sei que essa picada salvou meu corpo que dormia há muito e gritei de dor.
Com esse grito a parede abriu uma pequena fenda, que eu não vi porque estava escuro mas senti na solidez da parede. Ao aperceber-se deste fenómeno a ladainha cessou.
Tudo ficou calmo por um instante que eu não sei se foi curto ou comprido porque não sabia mais que tempo era. Esse instante foi como o fechar dum ciclo. A voz que outrora me enlouquecera, dizia-me agora que era possível deitar abaixo a parede, a inércia a que me haviam condenado estava prestes a acabar.. talvez se eu gritasse mais um pouco…
A princípio duvidei, como seria possível?
Porém, antes que o ciclo que se iniciasse me levasse de novo a fitar a parede, dei um passo em frente ( quase bati na parede), estendi a mão e senti, de novo, no escuro a fenda, rodeei-a com as mãos, encostei os lábios às mãos e um som tímido, quase inaudível fez frente à imponente parede. Perdi a noção ao tempo que este som levou a tomar forma de grito, o tempo que demorou a embrenhar-se na fenda da parede, o tempo que levou a encontrar um caminho até ao outro lado, a difundir-se, a alastrar-se a todas as fundações da esmagadora parede.
Perdi o tempo ao tempo que gritei, até que por fim, um grito que outrora fora surdo, dividiu a parede em mil bocados e, em tempo nenhum a parede caiu e um luz imensa encheu a divisão.
Foi-me difícil abrir os olhos ao principio, mas pouco tempo depois habituaram-se à claridade e pude finalmente ver do que a parede me separava.
Abri mais os olhos de espanto.
De costas para a parede derrubada fitei, esmagada pela crueldade das evidências, que outra parede me fitava, intacta, forte e áspera como a que derrubara.
Perdi noção do tempo que me permiti a olhá-la, de pé, parada, até sentir o torpor a que o meu corpo se subjugava, até ouvir nada mais que silêncio.
Perdi noção do tempo e deixei-me ficar.
Há sempre mais paredes para derrubar.
Agosto, 2005

2 comments:
Por que é que ainda ninguem comentou? :O
optimo texto..soberbo diria!!! Apesar de haver sempre mais e mais e mais paredes, temos de libertar o q tá cá dentro e q as possa derrubar...porque, aprisionarmo-nos ate de nos proprios jamais compensa...
bom regresso este :D
Há sempre uma parede a seguir àquela que pensávamos ser a última...
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