Monday, October 22, 2007

analítica

Sempre tinha tido medo, talvez por saber sofrer de miopia. No fundo era apenas uma desculpa, sabia que ia ser uma observação feita a poucos centímetros do objecto de estudo.
Tinha vindo a adiar aquele momento, da última vez que tinha acontecido tinha ficado destroçada, não havia luz, os olhos fundos, encovados, àgua pelos joelhos, as mãos trémulas, frias, suadas, a boca pequenina, infíma, os gestos e a postura de quem quer estar só.
Tinha medo, não sabia o que poderia encontrar, mas não podia evitar mais aquela consulta.
Antes de o fazer, porém, fechou os olhos e imaginou, imaginou que o que a esperava do outro lado fossem uns olhos abertos, enormes, brilhantes, que falassem como os que já tinha visto, mas apenas de coisas bonitas, de sonhos...
Desejou que os braços estivessem bem abertos, a cabeça bem erguida e o coração cheio.
Quis encontrar uma boca de sorrisos e suspiros encantados. Ao redor, flores, nuvens brancas, raios de sol, queria ver a Natureza vibrante a pulsar em todas as veias, a ser em todas as artérias e por fim imaginou ver os pés descalços, enterrados, sentindo a terra molhada e a erva a acariciá-los ao passar da brisa fresca.
Abandonou-se nesta imagem de desejos por uns momentos, seria possível? Não sabia, mas precisava de o descobrir.
Encheu os pulmões de ar.
Deu um passo em frente.
Destapou o espelho...

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