Sunday, February 03, 2008

O último anjo morreu.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
O último anjo morreu.
Jaz por terra ao lado dos outros.
O céu não se fez escuro. Não derramou sobre a terra estéril, onde jaz o último anjo morto, o seu pesar. A terra não tremeu, não se abriu em fendas. A terra não tremeu nem mesmo quando o anjo morto caiu. Não se fez noite. O sol continuou brilhante no céu, com uma luz aguda, uma luz intensa que fura a retina a quem a desafia directamente.


«O último anjo morreu.»

Espalhou o vento soprando pelos quatro cantos do mundo e o mundo, indiferente, continuou a girar. E, até o vento, após contemplar pela segunda vez o anjo caído, seguiu o seu caminho em silêncio.

Não nasceram flores no solo que ele ocupa. Não brotou uma fonte de água pura onde o cadáver se acomoda. Não há lágrimas. Não brilhos. Não há qualquer tipo de sopro divino.

Ali. Ali na terra árida e estéril. Ali onde um é apenas um aditivo num resultado de muitos. Ali onde escorre pela fenda acre do solo algo semelhante a esperança, numa réstia diminuta e indiferente. Ali, ali jaz o último anjo. Morreu.

Não se ouviram os coros celestiais. A vibração do mundo não sofreu qualquer mutação. Tudo permaneceu intacto, até uma gota de água caindo provocaria mais impacto. Não havia sequer espaço para a ausência do batimento cardíaco do corpo sem vida do anjo. O último.

Todos os outros já tinham caído. Morrido no mesmo mundo apático. No mesmo mundo sorvedouro de energia celeste. Na mesma agonia paralela entre o nada e o esquecimento. Entre a dor e a indiferença. Não havia mais nada que um anjo pudesse fazer. Não havia mais razão de ser.

O último anjo morreu e não há importância nenhuma nisso. O mundo permanece intacto.
.
.
.
.
.
.
.
O último anjo morreu.

3 comments:

Abraxas said...

dcp a linguagem mas foda-se!
escreveste isso a pensar em quê?
isso sinceramente assenta muito bem a pequenez do ser Humano, nem a sua vida hoje em dia faz alguma diferença, nem fará a sua morte, e o mais frustrante é tentar mudar isto e não conseguir...ter a pureza da antiguidade da Vida...serão esses os anjos?
"Nós somos os arquitectos da nossa própria destruição", essa é a mudança principal entre sermos um animal da natureza ou uma tribo e nos considerarmos cidadãos de alguma civilização, agora nós é que temos preparados mil e um cataclismos em que nem acreditamos...e a Terra existe há já 5 000 000 000 de anos e nós enquanto humanos há 12000 e já nos destruímos e a mais de 80% das espécies, engraçado não?

Dcp, eu falo mesmo demais :x
Em relação ao livre arbítrio eu concordo, unica maneira de aprendermos verdadeiramente é errando, claro que há limites. Acredito que há muito mais do que nos mostram, em relação à energia, ao funcionamento do Mundo, do Universo, que tudo obedece a um Equilíbrio, que somos todos feitos do mesmo e que nada me garante que isto tudo que vejo, que cheiro, que sinto é real, como a morte. Nada mais é do que mudar de forma, continuamos a ser energia, e a consciência nunca existiu realmente. É difícil falar disto e eu já falei demais.

***

BrokenAngel said...

UAU!

apenas isso:

UAU!

Ana Margarida Cinza said...

no fundo, muitas vezes isto acontece...

tudo vai morrendo e, em resposta, muito pouco vamos vendo..

todos os dias vamos morrendo, e não brotam flores no nosso lugar...

todos os dias vai morrendo uma parte do mundo, não só anjos...onde será reposta a nossa falta?

gostei..estou "Fisolófica" agora :P

(é sempre bom voltar ao teu cantinho para te ler!)

beijinho*