Estava prestes a desistir quando entendeu que desistir não era uma solução, nem mesmo uma hipótese viável. Tinha chegado tão longe, desejado tanto.. não podia desistir agora.
Levantou-se, foi até à cozinha, um chá havia de ajudar. Sabia-lhe sempre a pouco o chá, achava maravilhoso o que meia dúzia de ervinhas de cheiro e água fervida podiam fazer, a história do chá, os rituais do chá.. o seu ritual de beber um chá sempre que precisava de se lembrar de como era bom viver e de como tudo valia a pena, mesmo o que fazia sofrer pois eventualmente acabaria por encontrar aí algo novo a aprender.
Voltou a sentar-se em frente do computador.
Era mais uma daquelas noites entediantes em frente do monitor à espera de que algo novo acontecesse e essa noite aparte de tudo que poderia ainda acontecer algo de novo tinha já acontecido. Ele estava disposto a trocar mais do que um simples monossílabo. Pela primeira vez em semanas decidira-se a encarar os problemas e a resolver aquela situação de uma vez por todas.
Era tarde. Quase uma da manhã e ali estava ela, com o chá numa mão e o coração na outra ou seria com os dois na mesma!?!
Seja como for ele estava a falar, insistia que era ela quem via coisas demais onde estas não existiam. Ele era livre, não dependia dela para coisa alguma. Queria deixar isso bem claro. Porém esquecia de todas as vezes em que ela tinha desempenhado um papel crucial para que o desabamento iminente que ele tanto apregoava se realizasse, esquecia-se de que sem ela, ele não poderia afirmar com tanta segurança, com tanto ar de si que não dependia dela para nada.
Tomou mais um golo de chá. Leu mais uma vez o que ele acabara de articular em mais do que um monossílabo, imaginou o trabalho que isso lhe deveria ter dado, o esforço mental e físico que teria feito, deu mais um golo e com o chá engoliu o choro.
" Sabes, preciso de uma rapariga."
Porque diria ele aquelas coisas ela quis saber, mas não lhe perguntou.
Era tão difícil. Ela dava sem nunca pedir nada em troca.
Pior que isso só quando era retribuída... horas de retribuição, escassos minutos, no dia seguinte voltavam os monossílabos, as palavras secas, o olhar distante. Era corpo, era desejo, o resto ficava igual, era uma retribuição carnal uns instantes de busca dada como acabada... instantes que acabavam à hora de abrir a porta de casa, tirar a roupa e dormir.
" Não percebo o que queres dizer com isso de as coisas terem mudado entre nós. Somos amigos como sempre fomos, não vejo nada de diferente, mas o que queres dizer exactamente? O que achas que mudou?"
Baixou a cabeça. Não percebia como era possível ele não ver, aquela indiferença doia-lhe mais que uma rejeição.
" Se não entendes o porquê ou o que mudou, então também acho que não me cabe a mim dizer. Talvez tenhas razão e seja tudo da minha cabeça. Esquece, nunca devíamos ter começado esta conversa." respondeu por fim.
Do outro lado a resposta não chegava... a dura indiferença. A janela aberta e não havia resposta... chegou ao fim da chávena de chá e quando ela ia buscar mais...
" Podes vir tomar um café agora?! Passo aí e falamos."
Aquilo apanhara-a de surpresa, nunca o imaginou capaz de uma atitude daquelas, nem sabia o que responder. Era tarde...
" Erm.. sim, vou-me vestir. Passas aqui a que horas?! "
" É o tempo de te vestires, quando aí chegar dou-te um toque e desces. "
" Ok."
Ainda ficou uns minutos a olhar o ecrã, depois de ele ter saído, releu as últimas linhas, pensou para consigo que às vezes o que era mesmo preciso era agir.
Levantou-se, desligou o compuador e foi-se vestir. O telemóvel tocou. Estava a sentir-se um lixo.
" Olá."
" Oi! "
Parecia que se viam pela primeira vez. Secalhar era a primeira vez que se viam com aqueles olhos.
" Onde queres ir tomar café?! "
" Qualquer lado. Decide tu. Tu é que levas o carro. "
" Vamos ao sítio de sempre então."
Imaginou que a escolha não podia ser a mais errada. Aquela conversa no sítio de sempre ia arruinar as boas memórias que tinham daquele lugar, provavelmente ia ficar uns tempos sem ali voltar.
Viajaram em silêncio. O sítio de sempre estava à espera no sítio de sempre. Sentaram-se na mesa que era a deles, naquela de sempre, onde viam o mar de sempre, onde faziam as conversas de sempre, mas aquela não era uma conversa de sempre.Pediram o de sempre.
"Então... Queres dizer-me o que mudou?! Ou preferes que me ponha aqui a tentar adivinhar?! "
Apesar de terem saído para falar ela ainda sentia que ele não dava o tom sério que ela dava, não dava a importância que o momento merecia.
" Sabes, acho melhor afastarmo-nos por uns tempos."
" Mas.. o que é que se passa?! Fiz alguma coisa que não devia?! Estás chateada comigo? "
Apeteceu-lhe dizer-lhe que era com ela mesma que estava chateada, que aquilo tinha acontecido porque a dada altura ela começara a pensar no que se passava, ela começou a ouvir o que todos insinuavam e pior... começou a senti-lo.
" Achas natural a maneira como nos comportamos de todas as vezes que saímos? Daquelas em que a noite e o alcóol estão presentes? Daquelas em que estamos simplesmentes diposníveis para a amar. Achas?"
Ele olhou-a por uns instantes, na verdade olhou para ela ainda a dizer aquelas palavras, ela já não as dizia, mas ele ainda as ouvia. Afinal era aquilo que a perturbava, pensou. Afinal, já não era só mais um amigo, tinha-a mudado e não se tinha dado conta ou teria?
" Ouve, aquilo que se passa de cada vez que saímos simplesmente acontece, é como tu dizes, estamos disponíveis para amar, mas é só isso. "
Não lhe estava a dar novidade nenhuma isso já ela sabia, nessa noite tinha resolvido arriscar só para poder bater no chão duro que era aquela realidade e poder depois seguir em frente de cara amassada, mas ainda inteira.
" Sabes, no inicío isso não me incomodava, mas agora se não acontece nada sinto falta, chateia-me que não tenhas nada a dizer sobre isso, acho que já não és só um amigo."
Seguiu-se um momento de silêncio.
" Lamento que penses assim. Não era nada disso, entendeste tudo errado."
" Não lamentas mais que eu. De qualquer forma só queria pôr isto em pratos limpos, já não podia tolerar mais esta situação."
" Não era mesmo nada disso, como é que... onde é que.. sinceramente, não sei que te diga."
Chegou o de sempre.
" Diz seja o que for. Não fiques calado porque eu quero ouvir alguma coisa, já bastam as suposições que fiz, as esperanças que alimentei, as ilusões que criei. Abri o jogo, agora secalhar era a tua vez de me dizeres qualquer coisa para eu poder largar isto e manter alguma coisa do que foi bom."
" Secalhar.. mas apanhaste-me de surpresa..."
" Really?!? És assim tão cego?! Tão insensível que não és capaz de ver o que tá um palmo à frente do nariz?! Geez.. Não acredito. Desculpa, mas tudo me leva a crer que tiraste partido da situação."
" Não foi nada disso! Tás bem enganada. Como aliás plos vistos estiveste em relação a tudo!! Queres que te diga o quê?! Que não passas de mais uma rapariga? Que és uma amiga com a qual posso estar de maneira diferente, mas que não é mais que isso? Não sei porque é que foste ver tudo isso numa coisa sem significado nenhum. Era isso que querias ouvir?!?! There! Já disse. És minha amiga e pronto, passamos bons momentos juntos e então?! Não há mais nada a acrescentar."
" Óptimo! É bom que finalmente se definam as coisas. Óptimo mesmo. Era isso mesmo que eu queria. Assim largo duma vez isto tudo e deixo de ser a Amiga! e passo a ser aquilo que sou para toda a gente. Realmente sou muito estúpida, tens razão. Obrigado por realçares isso, agora que esclarecemos isso se não te importas vou pra casa, é tarde e não estou com disposição para estar aqui."
" Espera. Achas que as coisas vão ficar assim?! Que falas, dizes o que pensas e que me viras as costas?! Não achas que eu também tenho uma palavra a dizer?!"
" E o que é que eu te tenho estado a pedir?!?! Mas não, eu sou a louca. Desculpa-me lá se eu não fui inteligente o suficiente para perceber que isto era fisíco e que não podia passar daí. Desculpa, my mistake. Mas sabes?! Agarrado ao corpo vem um coração, uma coisa que não se controla e que a dada a altura responde ao corpo e ao desejo."
" Se vistes isso porque é que continuaste a corresponder?! "
" Deixa de ser estúpido, se não entendes isto então também não vale a pena tentar explicar."
" Realmente não vale a pena insistir. O que é que queres fazer em relação a isto?!"
" O que é que há para ser feito?! Nada. Não há nada a fazer."
" Mas eu quero continuar com a nossa amizade."
" Eu também queria mas neste momento não consigo. Preciso de me afastar de ti por uns tempos, ultimamente fazes-me mal. Não dá, não me sinto suficientemente bem para fingir que não se passa nada e que posso continuar a ser a tua amiga, confidente, etc etc.. não dá."
" Não sejas assim, não muda nada, simplesmente quando normalmente aconteceria alguma coisa, não acontece mais nada."
" Não entendes pois não?! Já passou essa fase... "
" Tudo bem, se é assim que vês as coisas... "
" São assim que elas são!!!"
" Do teu ponto de vista, além disso acho que estás a ser extremamente injusta!"
" Oh pah... tudo bem, se é assim que achas que eu tou a ser, tudo bem, é como tu quiseres, sou o que tu quiseres, simplesmente agora não há espaço pra ti.. já basta o espaço que ocupas com todo esse teu EU."
" Pronto, ja vi que não dá pra continuar a falar... querias ir embora.. vamos, levo-te a casa, precisamos de uma boa noite de sono."
Não respondeu. Sentia-se humilhada, triste, revoltada com ela mesma. Aceitou a boleia.
Pagaram o de sempre que tinha ficado igual.
Permaneceu calada toda a viagem, apetecia-lhe desabar, chorar... mas não ali ao pé dele. Ele ia calado. Suspirava de vez em quando, parecia um pai que não sabe o que fazer com o filho recém nascido, parecia esperar qualquer tipo de salvação vinda do céu. Nada. Só carros que passavam dum lado para o outro, ruas desertas, semáforos intermitentes. Ela desceu do carro no sitio do costume. Murmuraram-se um "Adeus! ". Seguiu caminho, pensava naquilo que ela lhe havia dito, não entendia, não sabia porque é que as coisas se tinham desenrolado daquela maneira. Não sabia?! Não sabia mesmo?!? Perguntava-se se ela não teria razão até certo ponto. Se também ele não sentira como ela mudará em relação a ele. No fundo ele sabia. Sabia. Lembrava-se bem da noite em que ela parecia diferente, na realidade ele nessa noite sentiu-a mais livre, mais solta, mais bonita até.
" Chega aqui." Ele aproximou-se e ela abraçou-o. Sentia-a respirar mais forte. Sentiu um desejo que não era usual nela. Gostou e quis mais... sim, tinha sido uma noite diferente.
Estacionou à porta de casa e deixou-se ficar.

6 comments:
nice :)
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BF
Tá muito bom o blog, pena não ter onde comentar...como o teu.
obrigado =)
Miana.
Sabes que a tua opinião para mim é daquelas que contam a dobrar ou a triplicar por isso só tenho a dizer um obrigado muito sentido do fundo do meu colaxaum =)
drt*****
Miana.
Bela história, bem escrita... um corajoso ensaio diria até, real ou não, agora já o viveste. Parabéns
=) há coisas que só se vivem assim.
obrigado.
****
Miana.
ou entao nao!! gosto mt de ti, n me perguntes porké...pk eu tb nao sei explicar!
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