Sunday, November 27, 2005

Reflexos ( part II )

(...)
Encontrámo-nos todos os dias dessa semana.

- Mostras-me coisas que eu nunca vi, que sempre estiveram lá e nas quais eu nem reparei. Acabou por dizer, trazendo-me de volta ao mundo das coisas que são.
- Tu também me mostras coisas que eu não vejo, fazes-me pensar a vida doutro modo.

Era tão difícil explicar-lhe aquilo que eu sentia, que me fazia dizer-lhe aquilo.
Antes dele as coisas eram diferentes. Ainda me lembro quando nos conhecemos, antes disso eu sentia-me desencontrada do mundo, das coisas que nos ligam à terra, mas também não estava ligada ao céu, tinha um mundo só meu, preso numa redoma de cristal que não deixava ninguém entrar mas que também não me deixava sair. Ele tinha-me feito descobrir uma saída, um modo de escapar à redoma de vidro, deixando o meu mundo de sonhos intacto para que eu o pudesse visitar sempre que precisasse, mais, com o tempo ele próprio tinha encontrado uma entrada para esse mundo e agora fazia parte dele, ajudava-me a cuidar de todas as coisas bonitas que por lá andavam.

- Eu não sei de nada… não percebo o mundo, não percebo as pessoas, não acredito nelas, por muito que eu queira não sei depositar a minha fé nos homens, nem mesmo no mundo e duvido de qualquer outra força que possa existir. Só sei da força natural das coisas, mas não sei vê-la, não a consigo perceber e perco-me todos os dias um pouco mais. És o único elo palpável, a única ligação que eu não entendo mas que aceito sem pôr à prova.
- Sabes mais do que aquilo que pensas, sabes, mas não queres saber, pensas que estás mais segura assim e enquanto pensares assim vais depender sempre de alguém. Sou o elo até tu perceberes que não te ligo a coisa nenhuma a não ser a mim, é uma ilusão, um dia vais procurar outras coisas, ver outros elos, perceber que aquilo que precisavas de mim já não existe mais, só em ti e então voas para longe.
- Não. Porque o que me liga a ti nem eu sei explicar o que é, não quero que tenhas razão quando dizes que eu só preciso de ti para perceber o mundo duma maneira e que quando souber que maneira é essa te vou largar, é mentira. Ensinaste-me tanto, quando nos conhecemos eu era uma tolinha, andava perdida num mundo de ninguém a dar importância às coisas erradas.
-Tu já sabias essas coisas todas, sabe-las dentro de ti, eu não fiz nada, não te mostrei nada que não tivesses já visto.

Calei-a com a minha resposta. Não voltou ao assunto. O facto de me ter dito tudo aquilo incomodava-me. Não gostava que ela me visse melhor e maior que ela. Eu não era nem sou melhor que ninguém… tantos defeitos… tantos… tanta humanidade.
Não sei se ela percebia a importância que tinha para mim, o quanto significava, o que me tinha ensinado com aquela ingenuidade, toda aquela boa vontade no mundo que ela julgava ser eu a ter.
Ela não sabia, nunca saberia, porque eu nunca seria capaz de lho dizer. Não pelas palavras certas, pelos gestos certos, nunca, nunca estes traduziriam tudo o que ia cá dentro de cada vez que eu percebia em mim a sua força, a sua vitalidade. Adorava cada qualidade e cada defeito, única numa espécie de 6 biliões… sorri para comigo.
Voltei à minha leitura. Ela permanecia calada a olhar o mar.
Quando já me tinha abstraído do que se passava em redor e estava completamente mergulhado no livro, ela voltou a falar:

- Tens ideia da quantidade de gente que teve de morrer e nascer para estarmos aqui hoje? A quantidade de ocorrências, coincidências, decisões que foram necessárias para que hoje pudéssemos estar aqui assim, eu a olhar o mar e tu a ler esse livro?! Já viste como foi preciso que tudo conspirasse a favor?!

Sorri-lhe. Afinal não estava a olhar o mar, estava a olhar a História, a entrelaçar suposições e contos na cabeça. Continuei calado, sabia que aquela era mais uma pergunta que era de ela para ela como tantas outras que lhe saíam pela boca para todos e para ninguém. Perguntas cuja resposta ela queria conseguir sozinha e que só formulava em voz alta para poder dar-lhes outra forma que não a do pensamento.
Fiquei a olhá-la por uns momentos. Ela não via o mar calmo à sua frente, mas o mar agitado dentro dela, eu só sabia de tal facto porque a tempestade batia-lhe nos olhos, parecia preocupada, desiludida com as respostas que eu lhe tinha dado minutos antes, apeteceu-me pegar-lhe nas mãos, envolvê-la num abraço, fazer-lhe sentir que tudo o que tinha sido antes só importava na medida em que nos trazia o agora, o agora que já não o era porque não existe.

2 comments:

Ana Margarida Cinza said...

e cá estou eu uma vez mais...estou a gostar do que fazes com esta historia (posso chamar-lhe assim nao posso?)..obrigas-me sempre a voltar aqui para ver se já acrescentaste alguma coisa...não digo um fim, porque há tantas e tantas histórias que não têm fim...temo-lo na nossa cabeça e é nosso...somos egoistas ao ponto de não os partilharmos...gostamos d nos embeber naquilo que é nosso...naqueles nossos fins cinéfilos, lamechas..
Desculpa...vim para aqui divagar...vou tornar-me repetitiva e dizer que gosto do teu blog, dos teus posts, da variedade que aqui podemos encontrar, da maneira como escreves e como expões aquilo que gostas de ler (os poemas!)...já sabes que sou leitora assidua :P
Fica bem**

M. said...

às vezes também fico só à espera que a história, avance, tome lugar e me faça arescentar mais qualquer coisa.. mas por enquanto, esta fica por aqui