Friday, January 19, 2007

Fumo_I





Desenrolou o plástico à volta do maço de tabaco, abriu-o e tirou um cigarro.


-Tens lume?!
-Sabes bem que não.

Levantou-se, foi até ao móvel da sala, abriu uma das gavetas e tirou um isqueiro, puxou fogo ao cigarro susteve um pouco a respiração e exalou o fumo pela boca.
Naquela fracção de segundo em que o fumo lhe entrou pela boca e se demorou na garganta ela perguntou-se o porquê de ainda insistir naquilo.


Ele sentou-se novamente em frente dela.

Ela olhava a mesa.


-Então?
-Então?! Não sei.
- Pensei que tinhas algo para me dizer.
-Tinha, mas já não sei se deva. – estava insegura, aquela pequena fracção de segundo em que o ar se demorou na garganta dele levou-a para longe, para o tempo em que ainda esperava dele apenas que ele fosse como ela o via.

Ele rodou o cigarro no cinzeiro, olhou para ela, procurou os seus olhos.


Ela estava assim, meio distante, meio cá e meio lá, rodou os pensamentos no cinzeiro e olhou-o.


-Tens andado desaparecido.
-Muito trabalho, tu sabes.
-Sim, sei.
-Oh! Não ponhas essa cara.
-Qual cara?!
-Essa… essa que fazes sempre que as coisas não correm como queres. Cara de desapontada.
- Ilusões… Tão depressa se criam como se destroem.
- Talvez tenhas razão… Talvez não.
- Talvez…
- Estás bonita. – disse depois de dar um bafo no cigarro.
- Estou cansada.
- Fica. Só por esta noite.
- Não, hoje não vim para ficar contigo, vinha-te falar.
- Então fala.

Apagou o cigarro e mexeu-se na cadeira, ela estava diferente, mais decidida, mais forte, apesar de toda a segurança que fazia transparecer no fundo ele sabia que estava insegura, isso atraía-o, por uma lado aquela força meio bruta, por outro o sentido de protecção… porque não dizia logo o que queria?!

- Não é fácil.
- Estás cansada, falamos disso amanhã. – Disse pegando-lhe na mão.
- Não! – Respondeu tirando a mão debaixo da dele


Porquê aquela reacção agora?! Tinha desaparecido, nunca estava lá, sempre em trabalho segundo dizia, e agora que ela precisava de lhe explicar tanta coisa, ele queria que ela ficasse, queria-a… sentiu-se perdida, era sempre assim, recaía, deixava-se envolver de novo e quando dava por ela estava de novo naquele ciclo vicioso.

2 comments:

Ana Margarida Cinza said...

ainda me tento aperceber de vez em quando se os ciclos viciosos e os vicios não são mesmo o que nos mantêm vivos...ou se são simplesmente o que nos vai destruindo todos os dias, um pouco!...

bom regresso :) {esse dos ciclos viciosos tocou!)

beijinho*

Alexx M. said...

Mas algo me diz que desta vez foi diferente e a sua resposta brusca, o seu jeito decidido e a força que lhe estava a crescer no peito, para lá de todas as recaídas, transformaram algo dentro dela. O ciclo começa a quebrar-se com o primeiro "Não!"...


Pois é, vim aqui passear-me pelo teu blog e descobrir o quão bem tu escreves ;) I'll be back!
Beijos grandes,
Xana***