Friday, January 19, 2007

Era uma vez_II

(...)Quando a olhou de novo ela tinha o dedinho esticado e desenhava no céu coisas novas, talvez uma parte nova do castelo, talvez uma ponte que transpusesse o fosso que o circundava.

Sonhando com a menina e com o seu riso o príncipe adormeceu novamente, mas sorrindo, uma nova esperança enchia-lhe o peito.

Era uma vez, um príncipe sem capa nem espada, mas que já tinha lutado ou pelo menos tinham feito guerra com ele. Tinham-no ferido, já havia sofrido vários golpes, alguns quase fatais, felizmente sofrera também alguns golpes de sorte e as feridas cicatrizavam lentamente dentro dele. O peito ainda lhe doía.

Era uma vez, um príncipe que tinha lutado do lado do mundo, mas o mundo não queria lutar as batalhas do príncipe, o mundo tinha outras guerras, outros combates e certo dia, o príncipe, que sempre tinha sido aliado do mundo, sentiu-o a apunhalá-lo pelas costas. Agora o mundo era assim, na maioria das vezes mais um campo de batalha, mais um inimigo. Como era difícil combater o mundo.

Era uma vez, um mundo que as pessoas julgavam ser delas. O mundo era assim, encantado, não como o príncipe porque o príncipe não era encantado, mas como o riso da menina que rodava sobre ela mesma à volta de um lago.

O mundo era das pessoas. As pessoas faziam do mundo um lugar hostil, ferido como o peito do príncipe, desacreditado como o peito do príncipe.

Era uma vez, uma menina. Essa menina era como as outras meninas. Não era nem gata borralheira nem princesa, não tinha vestidos de seda nem usava sapatinhos de cristal. Não sonhava com príncipes nem ia a bailes.

Era uma vez, uma menina que falava com o rio e com o sol, que ria e rodopiava encantada com o brilho das ideias e os salpicos da água dum lago, essa menina era como as outras meninas, mas ria e rodopiava encantada com o brilho das ideias e os salpicos da água dum lago, rodopiava até cair de cansada. Caía, mas nada lhe doía, nem o peito, nem o riso e por entre as flores recuperava o fôlego e a energia.

Era uma vez, uma menina que conhecia o mundo mágico da magia das coisas que estão aos olhos de todos, mas que só alguns são capazes de ver.
Essa menina era feliz porque o sol lhe fazia cócegas no olhar, porque tinha um lago onde chapinhar, porque tinha a erva fofa a servir-lhe e travesseiro enquanto, de dedo esticado, desenhava no céu.

Começava a anoitecer e o céu estava a ficar bastante desenhado, a menina estava a ficar cansada, levantou-se, sacudiu o vestido e perseguiu os pirilampos até casa, mas não sem antes se despedir com o sorriso do lago, da erva macia, do céu e das flores.

Quando o príncipe despertou já havia estrelas no céu. Mal se apercebeu disso procurou a menina do outro lado do lago. Nada. A menina não estava lá. Não havia nenhum sinal da sua passagem. O príncipe ficou triste, gostava de ter podido admirá-la e decorar cada gesto que tão naturalmente fazia.
O príncipe começou a lembrar a menina. A menina lembrava-lhe um mundo que ele há muito não via, em que há muito deixara de acreditar ser real. Uma dúvida tomou-o de assalto: e se a menina não fosse real?! E se tivesse sido só um sonho? E se o riso que ele ouvira não fosse mais do que o mundo a rir-se dele como já havia feito tantas vezes?
O príncipe estava cansado. Já tinha visto tantas coisas, voado sobre tanto chão, já tinha visto tantas meninas, cruzado com tantos homens, alguns príncipes, como ele, ou quase, porque não se encantavam com meninas que sorriem à água dos lagos, nem tem cócegas nos olhos.

Era uma vez um sonho que um príncipe julgava ter tido. O príncipe olhou para cima. O céu estava particularmente estrelado nessa noite, não sabia se por ter visto tanto brilho durante o dia e esse brilho tivesse ido embora com a menina deixando a noite mais escura ou se por o brilho que vira durante o dia estivesse ainda reflectido no céu.
Deitou-se a admirá-lo. Demorou-se nele e só então reparou que aquele céu tinha o dedo da menina. Sorriu ao perceber finalmente o porquê de tanto brilho. Adormeceu.

(...)

2 comments:

Anonymous said...

ainda bem que a história continua...
ainda bem que não foi um golpe de sorte...

beijinhos

Ana Margarida Cinza said...

e a estória continuou mesmo...Pensei que te tivesses esquecido...Como é óbvio reli toda a estória...

É uma estória que muitos não entenderiam porque vivem nesse tal mundo que magoa o principe e lhe feriu o coração...É uma estória que poucos imaginariam porque apesar de contrafeitos só sabem viver nesse mundo que feriu o coração do príncipe...É uma estória que nada tem a ver com as outras estórias que contam às crianças prometendo-lhes um mundo mágico e fantástico do "felizes para sempre"...É uma estória para todos recordarmos, mesmo que não tenha um final concretizável, porque há estórias que não têm um fim...

Que regresso duplo mais saboroso!

Um beijinho*