Sunday, February 04, 2007

A que há de vir...

A que há de vir

Aquela que dormirá comigo todas as luas

É a desejada de minha alma.

Ela me dará o amor do seu coração

E me dará o amor da sua carne.





Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo

E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios

Ela é a querida da minha alma

Que me fará longos carinhos nos olhos

Que me beijará longos beijos nos ouvidos

Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.

Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas

Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego

Ela abandonará filho e esposo

Abandonará o mundo e o prazer do mundo

Abandonará Deus e a Igreja de Deus

E virá a mim me olhando de olhos claros

Se oferecendo à minha posse

Rasgando o véu da nudez sem falso pudor

Cheia de uma pureza luminosa.

Ela é a amada sempre nova do meu coração

Ela ficará me olhando calada

Que ela só crerá em mim

Far-me-á a razão suprema das coisas.

Ela é a amada da minha alma triste

É a que dará o peito casto

Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração

Ela é a minha poesia e a minha mocidade

É a mulher que se guardou para o amado de sua alma

Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.





Ela é o amor vivendo de si mesmo.

É a que dormirá comigo todas as luas

E a quem eu protegerei contra os males do mundo.





Ela é a anunciada da minha poesia

Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos

E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.




Rio de Janeiro, 1933



Vinicius de Moraes




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